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terça-feira, dezembro 07, 2004

Mário Soares e a Democracia de Esquerda

[por Rui Ramos, Outra Opinião, Lisboa, O Independente, 2004, pp. 142-153]



Há ainda gente à direita que gosta de ver em Mário Soares um “amigo especial”, como lhe chamou em tempos o Professor Freitas do Amaral. Para sustentar essa impressão, houve, até há uma dúzia de anos, o ressentimento ou desconfiança da esquerda contra Soares. Mário Soares tinha sido o chefe de um partido que se dizia socialista, mas que se aliou à “reacção” durante o PREC de 1974-1975; o primeiro ministro que introduziu o CDS no poder em 1978; o político que, perante a avançada da “reacção” em 1980, retirou o seu apoio ao candidato presidencial que a podia parar; o “sapo” que o “povo de esquerda” engoliu na eleição presidencial de 1986, apenas para ver o “sapo”, um ano depois, oferecer à direita uma década de governo. Em 1990, Soares anunciou solenemente ser “republicano, laico e socialista”. Muitos à direita, inclusivamente aqueles que quatro anos antes o tinham acusado de ser “materialista, ateu e maçon”, esforçaram-se por não levar a sério essa confissão. Ele era o suposto pai imparcial da democracia e como tal foi aclamado na reeleição de 1991. Assim se explica a mágoa e decepção com que a direita reagiu desde essa época às encarnações de Soares como força de bloqueio do cavaquismo, campeão do combate à política de defesa dos Estado Unidos, incansável crítico do “neo-liberalismo”, e entusiasta do “fórum social”. Ora, essa decepção não tem razão de ser. Mário Soares só enganou quem com ele se quis enganar.



Um homem de esquerda.

Nunca pareceu fácil determinar qual o “ideário” de Mário Soares. Soares tem atribuído algumas tremendas frases suas – como as de que o capitalismo tinha de ser “destruído” – às circunstâncias da época. O que levanta a hipótese de que o mesmo poderá um dia vir a dizer de outras frases não menos tremendas, como a de que “sem propriedade privada não há liberdade possível”. Este relativismo e a sua capacidade para contactos eclécticos criaram a ilusão de que Soares seria uma espécie de força da natureza, o lendário “animal político”, utilizável por quem lhe satisfizesse os interesses ou a vaidade. É um erro.

É verdade que, em França, François Miterrand também tinha convencido muita gente que era de esquerda, e hoje muitos se interrogam se ele não foi, de facto, o maior líder de direita que a esquerda francesa alguma vez teve. Mas ao contrário do seu amigo Miterrand, Soares não corre certamente o risco de se descobrir que em 1940 participou em manifestações da Legião Portuguesa ou que em 1950 foi condecorado por Salazar. Soares nunca pôde ser outra coisa que não anti-salazarista, e como anti-salazarista nunca pôde ser outra coisa senão um homem de esquerda. Mário Soares nasceu e cresceu de um dos lados da barricada, quando a política portuguesa apresentava uma rigidez quase tribal. Como quase todos os jovens anti-salazaristas da geração de 1945, Soares passou pelo PCP (meia dúzia de anos) e passou depois trinta anos a ter problemas com o PCP. O PCP dominava moralmente a oposição. O momento que definiu Soares foi a sua recusa do convite do PCP para entrar na clandestinidade em 1950-1951. Soares diz que percebeu que o PCP o queria liquidar. Soares foi sempre um político num sentido português clássico: um homem da antiga baixa de Lisboa e das infindáveis tertúlias das suas livrarias, cafés e escritórios. Soares queria fazer política, e a existência clandestina não tinha a ver com fazer política, mas com cumprir as ordens da direcção do Partido. Os militantes comunistas não eram políticos: eram funcionários. Ao aceitar a clandestinidade, Soares teria de fazer votos de zelo e obediência que de facto o liquidariam para a vida política. Entre ser militante e ser político, escolheu ser político. Só depois fez Mário Soares as leituras suficientes para se afastar do comunismo teoricamente. Mário Soares é de esquerda num sentido visceral, mas é também um político. É de esquerda porque reteve da esquerda a rejeição das mais antigas tradições portuguesas (sobretudo a tradição católica), e a crença na necessidade de mudar o país de acordo com os padrões universalistas do iluminismo. É político porque quis atingir os objectivos da esquerda não através do trabalho de formiga ou de combate de uma organização fechada, mas através das intrigas e manobras dentro de um quadro plural. Não é por isso menos sectário. É sobretudo mais imaginativo.

Antes de 1974, Mário Soares não teve uma vida fácil na oposição. Mesmo os católicos progressistas, em 1969, preferiram em grande número a companhia do PCP, na CDE, à de Soares. Em grande medida, Mário Soares confrontou-se, em 1969, com duas coisas que sempre tinham sabotado iniciativas como a sua, de constituír uma organização política legal na oposição. Em primeiro lugar, a pouca probabilidade de uma evolução do regime: sair da oposição conspiradora para uma oposição oficializada, mesmo com Marcello Caetano, nunca foi uma perspectiva plausível. Em segundo lugar, a recusa dos fragmentos da oposição, manipulada pelo PCP, em organizarem-se em partidos com um fim legal. A falta de partidos entre a oposição ao Estado Novo não era apenas resultado da polícia. Correspondia também à rejeição desse tipo de organização por gente traumatizada pelas partidocracias da I República e constantemente desviada para projectos “unitários” pelo PCP. Soares não tinha, devido à campanha comunista contra ele, margem de manobra para estender a mão a Caetano. Percebeu que a sua força dependia do “prestígio” das perseguições governamentais. Fez assim ao Estado Novo uma oposição especialmente irritante. Foi o advogado da família Delgado em 1965, ajudou à divulgação do caso dos “Ballet Rose” em 1967, e depois esteve na manifestação contra Marcello Caetano em Londres, em Julho de 1973. A sua linguagem tendeu a ser mais radical do que a do PCP: enquanto Cunhal pedia uma revolução democrática, Soares exigia a “destruição do capitalismo”. Como todos aqueles que quiseram fazer oposição ao Estado Novo fora do PCP, teve de ultrapassar os comunistas pela esquerda.

Por isso, havia no Estado Novo mais rancor contra Soares do que contra Cunhal. Basta notar o modo despeitado com que Marcello Caetano falava de Soares, e o respeito com que se referia a Cunhal. Condenado à oposição, Soares estava também condenado a ser de esquerda. Até porque, só à esquerda, depois do fracasso de Caetano, havia uma porta de saída rápida para a mais grave questão política portuguesa: o ultramar. Na questão do ultramar, Mário Soares subscreveu o projecto de terminar o esforço de defesa, que na prática significava o abandono do ultramar aos partidos armados. Não se podia permitir outra coisa. Na década de 1960, tentou compensar a sua falta de influência doméstica com o apoio dos socialistas europeus. Ora, entre os socialistas europeus não se admitia publicamente outra solução para o ultramar que não a imediata e incondicional retirada portuguesa.



A esquerda democrática.

No exílio a partir de 1970, Soares temeu que o PCP o conseguisse isolar, como fizera ao general Humberto Delgado anos antes. Em 1973, tentou inventar um Partido Socialista – praticamente, o primeiro partido fundado em Portugal fora do círculo do PCP e da extrema esquerda. Não tinha nem a tradição nem os sindicalistas que davam força aos partidos socialistas na Europa do norte. O seu “socialismo democrático” explorou sobretudo as preocupações sociais da antiga esquerda republicana, a cujos últimos sobreviventes Soares se ligara depois de romper com os comunistas, e a tendência de alguns jovens marxistas para favorecerem um regime pluralista como forma de escaparem à hegemonia do PCP. O principal jogo político de Soares, no entanto, foi uma aliança com os comunistas, como então Miterrand praticava em França. Não se sentia com força para mais. Soares continuava a compreender a política portuguesa em termos da hierarquia e dos mitos do “antifascismo”, e continuava a ver o PCP acima dele e dos seus socialistas. Como reconheceu várias vezes, foi ele quem impôs a admissão de Cunhal no primeiro governo provisório em Maio de 1974. Soares não queria ajudar o PCP, mas comprometê-lo: esperava que a presença de Cunhal no governo impedisse o PCP de o denunciar a ele, Soares, como colaborador de uma nova “ditadura militar”. Numa entrevista a Dominique Pouchin, confessou que em Setembro de 1974 não denunciou logo as manobras do PCP para a conquista do poder porque ainda “não tinha autoridade suficiente”. Durante meses cruciais, deixou os sindicatos entregues ao PCP, não se atrevendo a fundar uma central concorrente da Intersindical. De resto, não lhe teria sido fácil reagir. Como se viu no primeiro congresso do PS, em Dezembro de 1974, quase metade – 44 % -- dos principais activistas do partido seguiam uma linha favorável ao PCP.

Como é que Soares se tornou anti-comunista? Em grande medida, porque as brutalidades inábeis de Álvaro Cunhal não lhe deixaram alternativa. Acima de tudo, porém, porque viu as vantagens políticas do combate ao PCP. Soares compreendeu que, dada a vitória da esquerda militar em Setembro de 1974 e a decorrente limitação dos partidos à sua direita, havia em Portugal um grande sector de opinião que tinha sido deixado quase sem referências nem líderes. O PS poderia ser o porto de salvação para todos aqueles, dos católicos aos marxistas independentes, a quem assustou a aliança PCP-MFA. Foi também essa a percepção da diplomacia americana, que no Chile apostara em generais de óculos escuros, mas que em Portugal descobriu a utilidade de um líder civil, de esquerda, como barreira à sovietização. Soares tornou-se o “homem dos americanos”. Os socialistas franceses, então aliados aos comunistas locais, não gostaram, mas o anticomunismo tradicional dos restantes líderes socialistas da Europa do norte ajudou Soares a ultrapassar as reservas dos franceses. Soares sentiu-se assim suficientemente forte para resistir a qualquer entendimento que deixasse o PCP na posição de continuar a usufruir de todo o poder que, graças ao MFA, alcançara até Março de 1975. No Verão de 1975, Cunhal pagou caro o seu menosprezo de Soares. Indiferente às acusações de colaborador da “reacção”, Soares não fez então qualquer esfoço para se dissociar do levantamento anticomunista soprado no norte do país pela Igreja Católica e por spinolistas e ex-salazaristas. Pelo contrário, dispôs-se mesmo a encabeçar a “reacção”, a que deu um chapéu de esquerda.

Mário Soares teve de inventar uma esquerda para si próprio, a que chamou “esquerda democrática”. Em 1975, a esquerda queria dar o poder ao povo. Mas um povo homogéneo, em que não houvesse vozes discordantes. Contra a corrente, Soares instalou à esquerda um movimento político em que se proclamava que o povo não tinha de pensar todo da mesma maneira. O PS era, à esquerda, a única força que defendia explicitamente e sem quaisquer reservas o pluripartidarismo. Na euforia da revolução, não foi bem aceite pelos restantes esquerdistas e pelo MFA, que se recusaram a reconhecer aos apoiantes do PS o estatuto de esquerda: o PS não passaria de um “caixote de lixo eleitoral”. Com a arrogância ideológica que o PREC lhe permitia, a “esquerda revolucionária” não percebeu as vantagens do “caixote de lixo”. O PS não foi apenas o partido mais votado nas eleições para a Assembleia Constituinte, em 25 de Abril de 1975. Foi o único partido, em 1975, com votação em todo o território, isto é, que ultrapassou a divisão regional entre esquerda e direita. De facto, em termos de regiões, de idades, de classes e de sexos, o PS tornou-se, então, o partido cujo eleitorado melhor reflectia a estrutural nacional. Era uma espécie de Portugal em miniatura. O PS ganhou nos grandes centros urbanos, isto é, onde não funcionavam “máquinas”: a da igreja a norte, a do PCP no sul. O votante do PS era alguém não integrado, em que muito provavelmente predominavam as novas classes médias urbanas, aqueles cuja vida tinha melhorado e cujos costumes se tinham solto na década de 1960, e que por isso já não se identificavam com a disciplina católica mas também não se entusiasmavam com as prateleiras vazias do comunismo. Mário Soares, em 1975, tornou-se o seu homem. De todos os líderes partidários, era talvez o que menos fanatismo suscitava, mas também o que menos medo metia: ninguém esperava dele rigores ideológicos, ou exclusões por meros motivos filosóficos. Era o mais “humano”.

Esta humanidade não provinha do seu suposto carácter “bonacheirão”, mas de outra coisa: da sua sabedoria política. De facto, Soares não fez mais do que manter-se fiel à sabedoria adquirida pela esquerda republicana e até pelos comunistas durante meio século de derrotas e marginalização: a ideia de que a esquerda em Portugal só poderia garantir a sua predominância se soubesse ser “política”, e convencer a Igreja Católica e a classe média de que não tencionava triturá-las. Soares, como explicaria vinte anos depois, nunca se esqueceu de que qualquer “revolução”, numa sociedade como a portuguesa, serviria apenas para provocar uma “reacção”. A “revolução” acabaria, assim, por trazer a direita para o poder. Tinha sido essa a lição da I República. A esquerda democrática de Mário Soares era a esquerda anterior à revolução. Em 1975, quem inovou, quem mudou e acabou por perder o fio à meada foi Álvaro Cunhal. Soares seguiu a velha estratégia: percebeu que a “esquerda democrática” era a via para uma “democracia de esquerda”, e que a “democracia de esquerda” era a forma possível da hegemonia de esquerda em Portugal. Ao não fazer o novo jogo dos comunistas, Soares salvou o velho jogo da esquerda.

Depois de 1975, de forma a manter as direitas amedrontadas e agradecidas, Soares recordou constantemente a ameaça comunista desse ano, e o seu papel providencial no combate a essa ameaça. Para sustentar a sua versão dos acontecimentos, Soares contou sempre com a solícita colaboração do PCP. Em 1985, Cunhal chegou a proclamar que “como candidato da direita que é, Mário Soares é tanto ou mais perigoso do que Freitas do Amaral”. Alguma direita convenceu-se assim que, de facto, Soares tinha sido o homem que salvara o país do comunismo. Só é verdade em parte. Sem a esquerda democrática, o país teria sido salvo do comunismo, talvez mais violentamente. De facto, também se podia dizer que a esquerda democrática salvou o comunismo do país. Quando, em Dezembro de 1975, Sá Carneiro sugeriu a exclusão do PCP do governo, Soares opôs-se. Muito provavelmente, suspeitou de que o processo de aniquilamento do PCP redundaria no aniquilamento da própria ascendência da esquerda



A tutela da esquerda.

A ideia de esquerda democrática criou várias miragens. Em primeiro lugar, a de que o PS de Mário Soares, depois de ter servido para resistir aos desvarios de Cunhal, poderia servir também para libertar o país das “conquistas da revolução”, ou seja, para instaurar um regime que assegurasse uma verdadeira alternância no poder e permitisse o aumento do bem estar através da iniciativa individual. O desapontamento esteve garantido desde o princípio. O PS de Mário Soares limitou-se, como ele próprio diz, a “adoptar uma visão pragmática do sistema, de modo a permitir-lhe que funcionasse”. Para explicar esta atitude, falou-se dos “complexos de esquerda” que então afligiam geralmente os socialistas europeus. De facto, havia sobretudo aqui um projecto de hegemonia política. Diogo Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa lembraram várias vezes a Soares que, não tendo ele sido o Kerensky português em 1975, seria preciso que não fosse o Allende português em 1976 ou em 1977. Soares nunca quis de facto acabar à frente de uma qualquer “maioria de esquerda”. Mário Soares temeu sempre que uma bipolarização entre direita e esquerda, depois de 1975, entregasse o poder à direita. O seu objectivo não foi o de fazer-se o pólo de uma alternância, mas o árbitro dos equilíbrios atingidos no 25 de Novembro, aquilo a que Soares chamava o “compromisso democrático”. O PS podia candidatar-se a esse lugar porque, como gostava de lembrar Soares, representava a nação: “quando Portugal estava dividido como por um fosso intransponível, entre o Norte e o Sul, fomos nós socialistas, nós PS, aqueles que sendo tão fortes no Norte como no Sul, preservámos a unidade nacional”. A aspiração de Soares foi converter o PS no “partido-charneira”. Na prática, mais do que partido-charneira, o PS, no governo entre 1976 e 1978, tornou-se o partido-estado. Soares teve então a sua oportunidade de contribuir significativamente para a proliferação do funcionalismo público. Entre 1976 e 1979, o número de empregados do estado terá subido de 280 mil para 370 mil.

Soares era, em 1976, o homem do statu quo. No entanto, como verdadeiramente não tinha ilusões sobre a economia inventada pelo MFA, também não zelou por ela. Ajudou assim a criar a tradição executiva de adiar decisões, e deixar as coisas acontecer: o relaxe administrativo e fiscal compensou a timidez política na desmontagem do socialismo. Estes foram os anos de ouro da “economia subterrânea”, daquilo que o sociólogo Manuel Villaverde Cabral, muito exactamente, descreveu como “um contraprocesso de liberalização das relações económicas”, progredindo “à revelia dos controles estatais e sindicais”. Com tudo isto, transformou-se a democracia portuguesa numa panela de pressão, onde a iniciativa individual tinha pouco espaço no mundo legal, e a gestão dos equilíbrios primava sobre toda e qualquer efectividade executiva. As votações da Aliança Democrática em 1979-1980 traduziram o protesto contra esse regime. Mário Soares nunca pensou fazer-se o líder da mudança: pelo contrário, várias vezes se ofereceu como a muralha de aço contra a “dinâmica de direita”.

Aqueles que se convenceram de que o papel histórico de Mário Soares teria sido, no fundo, o de avalizar o acesso da direita ao poder estão equivocados. Só a rivalidade com o general Eanes levou Soares a “ajudar” a direita a alterar o “sistema” na década de 1980. Eanes, o Presidente da República escolhido pelo MFA em 1976, era o outro guardião da balança do 25 de Novembro. Soares, que se preparara para o tratar como uma espécie de Carmona, enfureceu-se quando Eanes revelou aqueles fumos de iniciativa que tinham caracterizado o velho MFA. Nunca perdoou a Eanes a sua demissão do governo em 1978. Para se livrar de Eanes, não hesitou em violar o contrato do 25 de Novembro, com grande escândalo dos seus correligionários na direcção do PS. Mas Soares “ajudou” a direita na medida em que esta aceitou a canga do “bloco central”. O bloco central conheceu duas fases: a coligação PS-PSD que teve esse nome, em 1983-1985, e a coabitação de Soares, já Presidente da República, com o governo de Cavaco Silva, entre 1986 e 1995. Os conflitos entre Soares e Cavaco durante a crise económica de 1993 são, nesta história, um detalhe secundário. É preciso não esquecer que, em 1991, Soares foi reeleito como teria sido eleito em 1986 se Mota Pinto, o seu parceiro do bloco central de 1983-1985, estivesse vivo e à frente do PSD. O “projecto europeu”, alimentado por Mário Soares desde 1976, serviu de base para o consenso. Para Mário Soares, o bloco central -- na versão de coligação ou de coabitação -- não se destinava a fazer a média da direita e da esquerda, mas a submeter a direita à esquerda. A democracia de Mário Soares implicou sempre a tutela da esquerda. E Soares provou que a Presidência da República, sem responsabilidades executivas, era o instrumento apropriado para manter essa tutela. O governo sempre foi um problema para os líderes da “esquerda democrática”, condenados aí a decepcionar os seus militantes. Soares, o “síndico da bancarrota” em 1976-1978 e em 1983-1985, sabia-o bem. Soares estava preparado para reconhecer que a economia funcionaria melhor segundo os princípios pregados pelos economistas da direita. Percebeu que essa concessão não precisava de pôr em causa a hegemonia da esquerda, pelo contrário: que poderia mesmo viabilizá-la.

Os comunistas tinham fundado a hegemonia da esquerda na “infra-estrutura” económica, requerendo assim uma direcção total da sociedade. Os custos foram enormes. Soares, pelo contrário, concebeu a sua hegemonia como uma forma propriamente política, com um aspecto ético-cultural, ou “super-estrutural”, na linguagem marxista. Mais uma vez, Soares revelava o seu apego à sabedoria do passado. Os seus interesses e incursões culturais fazem às vezes sorrir os profissionais. Mas estão longe de se reduzir a um mero diletantismo. Soares sabe o quanto o ambiente cultural pode limitar a acção política. Ajudou assim a manter uma espécie de “constituição mental”, o correspondente psicológico da “constituição legal” de 1976. É verdade que a esquerda também pode clamar que está limitada pelo mercado, sobretudo pela possibilidade dos investidores escaparem às suas experiências. Mas o limite que a esquerda sofre é-lhe imposto pelos investidores, a defender os seus interesses: ela pode-os classificar como egoístas, baixos, “economicistas”. Ao contrário, os limites que a esquerda impõe à direita podem ser descritos como idealistas, unicamente fundados em princípios. A esquerda – apesar dos esforços de Marx -- nunca conseguiu imaginar um modo de produzir riqueza eficientemente. Mas conseguiu montar um modo de produzir valores.

No regime democrático, a Presidência da República tem servido maravilhosamente para manter essa ascendência e dar-lhe efectividade política. Na qualidade de pregador e confessor supremo do estado, cabia ao Presidente inventar para o regime uma “essência” moral. Com Soares, essa “essência” consistiu naturalmente na filosofia da esquerda. De resto, as prerrogativas constitucionais do presidente garantiam que esse tipo de magistratura não teria de ser apenas retórica. Dentro destes limites, consentiu-se à direita que governasse, ou melhor, que os seus economistas exercessem as severidades necessárias para o sistema funcionar. A esquerda pôde assim impôr à gente da direita o estatuto menor de uma espécie de Salazares democráticos, sempre intimidados perante a superioridade moral da esquerda, sempre comprometidos perante a tradicional acusação de “economicismo”. Foi a esta direita que os portugueses passaram a ter direito. E quando alguma dessa direita, hoje em dia, perante as cotoveladas soaristas, protesta que “a democracia não tem dono”, engana-se: esta democracia tem dono. Um dia far-se-á justiça a Mário Soares. Compreender-se-á então que ele foi o mais formidável e o mais bem sucedido líder que a esquerda portuguesa teve em duzentos anos de história. Muito provavelmente, a direita a que temos direito há-de ser a última a compreender isso.


segunda-feira, dezembro 06, 2004

FRANCISCO SÁ CARNEIRO: UM PROJECTO DE LIBERDADE

[Rui Ramos, Outra Opinião, Lisboa, O Independente, 2004, pp. 154-170]



Em 1980, no meio das ruínas de uma ditadura e de uma revolução, Sá Carneiro propôs aos portugueses fazerem de Portugal uma democracia como as outras democracias da Europa ocidental. Nunca quis mais do que isso. Também nunca quis menos. Por isso, irritou as esquerdas, ainda presas ao socialismo revolucionário. Mas incomodou também as direitas – sobretudo aquela direita a quem sempre bastaram os negócios e empregos permitidos pelo paternalismo de Marcello Caetano, pela confusão do MFA, ou pela tolerância do Dr. Mário Soares.

Sá Carneiro sem mitos.

Convém não mitificar Sá Carneiro como fizeram os seus inimigos. Os inimigos de Sá Carneiro admiraram-no como um “animal político”, para poderem dizer que ele disputou o poder por puro gozo pessoal e à deriva das circunstâncias. Reconheceram nele um “líder carismático”, para poderem menosprezar os seus sucessos de 1979 e 1980 como um desvario messiânico destinado a acabar em Alcácer-Quibir. É verdade que Sá Carneiro nunca andou atrás de impossibilidades teóricas. Mas teve sempre um projecto. A esse projecto, chamou ele “social democracia”. Talvez seja bom recordar o que isso queria dizer. Em Portugal, na década de 1970, as esquerdas, do PCP ao PS, condenaram sempre a “social democracia”. E faziam-no porque a entendiam da mesma maneira que Sá Carneiro: como a designação do “regime de tipo europeu ocidental” que ele defendeu para Portugal desde que começou a fazer política em 1969. Em Dezembro de 1979, Sá Carneiro foi o primeiro político na história de Portugal a passar da oposição ao poder única e exclusivamente em virtude de uma clara maioria eleitoral. Nunca tinha acontecido antes dele. Sá Carneiro não foi um mítico D. Quixote solitário, predestinado para a tragédia: foi um líder político capaz de formular um projecto ao qual uma maioria dos portugueses aderiu na década de 1970. É essa história que é preciso perceber.

Um “inocente” no Estado Novo.

Sá Carneiro só se estreou politicamente aos 35 anos, a meio de uma carreira de advogado no Porto. Como quase todos os do seu meio, fora educado naquilo que ele chamou o “descrédito da política”. Um tio tinha sido ministro do Estado Novo, e o pai deputado. Não tinham feito “política”: tinham-se limitado a “servir” nos lugares para os quais haviam sido chamados. Era este espírito que Salazar cultivara entre os salazaristas. A sua função era apoiar e servir o Estado, e não disputar o poder ou agitar as opiniões. Mas quando, em 1969, Sá Carneiro aceitou um convite para ser eleito deputado no Porto, não foi para “servir” como os seus parentes. Como muitos outros, convencera-se de que, com a substituição de Salazar por Marcello Caetano, as direitas, até então submetidas a Salazar, iriam conduzir a transição para um regime fundado no sufrágio universal, com eleições limpas e partidos políticos legais. Sá Carneiro preparou-se para fazer política.

Depressa descobriu que se enganara. A estratégia de evolução ultramarina de Marcello Caetano não era compatível com qualquer evolução política. Caetano admitia a independência do ultramar, mas sem entrega aos partidos armados que combatiam a administração portuguesa. Por isso, precisava de continuar a guerra. Ora, para continuar a guerra, não se podia permitir o luxo de uma democracia de tipo ocidental, que as esquerdas certamente aproveitariam para espalharem a sua propaganda derrotista. Havia, porém, um processo de democratização que Marcello Caetano, aliás na tradição salazarista, queria incentivar: era a “democratização económica e social”, através da abertura de espaço para a iniciativa empresarial e da expansão dos serviços do “estado social”.

Sá Carneiro nunca aceitou esta ideia salazarista de desenvolvimento sem liberdade. Não podia esperar, como os salazaristas recomendavam, que os portugueses se habilitassem primeiro, através do trabalho e da educação, para a cidadania. Ter-se-á Sá Carneiro apercebido das transformações do país na década de 1960, e sentido mais seguro para esperar a democracia ocidental? A história talvez seja mais complicada. A actividade em que ele mais se aproximara da política tinha sido o activismo católico. Os activistas católicos, nas décadas de 1950 e de 1960, não vinham necessariamente de famílias católicas ou muito devotas: alguns eram até conversos. Mais do que o cumprimento dos deveres dos fiéis, animava-os a vontade de mudar de vida. Nesse contexto, Sá Carneiro fundou no Porto, em 1964, uma cooperativa cultural com o nome de “Confronto”. Era isso que ele e os católicos como ele procuravam nessa década. O Concílio Vaticano II deu cobertura papal às iniciativas de renovação dinamizadas por leigos. O afastamento, provocado pelas guerras em África, entre o Vaticano e o governo salazarista legitimou o desafio ao regime: subitamente, a “liberdade da Igreja”, até aí identificada com o Estado Novo, pareceu compatível com a exigência de “democracia política”. Neste sentido, o activismo católico foi uma das vias para a revolução cultural da década de 1960, e para a ruptura com o salazarismo. Não por acaso, uma parte importante destes católicos ditos “progressistas”, sobretudo aqueles que se envolveram na contestação da guerra no ultramar, acabou na esquerda revolucionária. Sá Carneiro manteve-se anticomunista e muito prudente e reservado acerca do problema ultramarino. Mas foi um dos que intercedeu junto de Marcello Caetano a favor do regresso ao país de D. António Ferreira Gomes, o Bispo do Porto exilado em 1959 devido aos seus confrontos com Salazar. A Sá Carneiro, o catolicismo pós-conciliar deve-o ter ajudado a chegar a uma concepção dos “direitos e liberdades” como fundamentos da “realização da pessoa humana” e de um “convívio humano justo”. Mais do que isso, convenceu-o da importância da política. Como explicou em 1969, no seu primeiro discurso político, “por muito que se tenha sido educado no descrédito da política, é-se forçado a reconhecer que, quando se começa a tomar em profundidade consciência da nossa própria existência pessoal e das realidades que nos cercam, somos constantemente conduzidos a ela. [...]”.A política, entendida como actividade de relação, era o lugar em que o indivíduo encontrava sentido. Já tinha sido assim que os liberais haviam pensado no século XIX. Tal como para eles, também para Sá Carneiro a liberdade política era prioritária. A designação de “liberal” estava assim exacta, não porque ele estivesse consciente de uma ligação directa ao passado (não estava), mas porque de facto era a recuperação de uma concepção “nobre” da política como principal actividade humana.

Sá Carneiro desorientou os salazaristas, tanto como os antisalazaristas. Ninguém nunca soube bem como o classificar. Quase toda a gente, tanto dum lado da barricada como do outro, estranhou a definição de “liberal”. O termo, para além do sentido de “liberalização”, tinha então um significado sobretudo histórico: referia-se aos estados constitucionais do século XIX. A história desses estados continuava, nesses anos, a ser feita de um ponto de vista marxista. Julgava-se que o “liberalismo oitocentista”, como se dizia, não teria sido mais do que um capitalismo sem regras nem coração. Sá Carneiro, educado na doutrina social da Igreja e por isso admirador dos sistemas de apoio social das democracias ocidentais, não se deixou naturalmente associar a esse liberalismo-espantalho inventado pelos marxistas. Como ele explicou, era “liberal” na medida em que acreditava que “jamais os direitos da pessoa humana podem ser submetidos aos da sociedade”. Este liberalismo separava-o, não apenas da maior parte dos salazaristas, mas também de quase toda a esquerda anti-salazarista, onde o marxismo se tornara de rigor. Para além disso, Sá Carneiro era um democrata. Percebera o erro fundamental do salazarismo. Os salazaristas tinham-se habituado a opôr autoridade e democracia. Sá Carneiro percebeu que a autoridade, para ser real, teria de estar fundada na democracia. Marcello Caetano era a prova disso. Em 1969, ao procurar um aval popular para a sua política ultramarina, tentara fazer das eleições legislativas o que tinham sido as eleições presidenciais na década de 1940 e de 1950, uma forma de sufrágio do regime.

A partir de 1970, na Assembleia Nacional, com o aplauso de uma dezena de deputados “liberais”, Sá Carneiro insistiu em apresentar projectos para o “restabelecimento dos direitos e liberdades fundamentais”. Exasperou os velhos salazaristas. Incomodou ainda outra espécie de gente: a nova geração de governantes recrutada por Caetano, os chamados “tecnocratas”. Como ambos os grupos falavam de “modernização”, confundiu-se por vezes “liberais” e “tecnocratas”. Era um equívoco. Muitos dos “tecnocratas” não se importavam de utilizar o estado autoritário para “modernizar” Portugal. Eram funcionários, às vezes críticos, mas leais. Embora convivessem com Sá Carneiro, sempre souberam que ele, irreverente e “político”, não era como eles.

Em 1973, quando Sá Carneiro e os “liberais” abandonaram a Assembleia, Caetano sorriu: “Eu por mim sempre me tive na conta de liberal: mas não pertenço ao número destes inocentes”. Ao exigir o fim da censura e da PIDE, os “inocentes” estariam apenas a abrir as portas ao “comunismo”. As esquerdas anti-salazaristas também sorriam da “inocência” de Sá Carneiro: acreditava na “democracia burguesa”, sem perceber que só uma nova ditadura de marxistas convictos poderia erradicar o salazarismo. Os salazaristas e os marxistas não eram de facto inocentes. Uns e outros nada esperavam de uma população que eles consideravam “atrasada”, a precisar da albarda de burocracias iluminadas. Sá Carneiro, logo em 1969, discordara: “recuso-me a aceitar que sejamos assim, que o nosso povo tenha por natureza de ficar eternamente sujeito ao paternalismo de um homem, de um sistema, ou de uma classe. Recuso-me a admitir que, ao contrário dos outros povos, não possamos ser capazes de conciliar a liberdade com a ordem, o progresso com a segurança, o desenvolvimento com a justiça”. Esta “inocência” seria a base da sua força política na década de 1970.



O “agitador” numa democracia limitada.

Talvez Sá Carneiro fosse um “inocente”, mas, ao contrário do experimentado Marcello Caetano, não era um homem de causas perdidas. A passagem pela Assembleia Nacional dera-lhe uma notoriedade que lhe valeu, depois de 25 de Abril de 1974, entrar no primeiro governo provisório como chefe de um novo partido, o Partido Popular Democrático. Comprometeu-se então com o general Spínola, de quem tentou fazer um presidente da república eleito, e portanto com a legitimidade democrática necessária para resistir ao assalto dos marxistas. Mas o general sofria do mesmo problema de Caetano: a identificação com um projecto ultramarino que, para ser viável, requeria a continuação da guerra. Isso deu a iniciativa aos oficiais do MFA, aconselhados pelas esquerdas. No seu célebre confronto com o MFA na Manutenção Militar, em Junho de 1974, Sá Carneiro ainda respeitou a linha ultramarina do general. Percebeu depressa que era um beco sem saída. Em Julho, apesar de ainda sublinhar a importância de uma “consulta democrática” no ultramar, reconhecia: “há que descolonizar rapidamente”. Agiu sempre em função do que era possível.

Graves problemas de saúde obrigaram Sá Carneiro a ausentar-se do país em 1975. Quando regressou, não encontrou a democracia representativa e pluralista por que lutara desde 1969, mas aquilo que ele chamou uma “semidemocracia”. Havia em geral liberdade de expressão e de actividade partidária, e as eleições eram limpas. Tudo isso, porém, tinha um alcance limitado. Limitado, em primeiro lugar, pelo poder militar, representado pelo Conselho da Revolução e pelo Presidente da República, um general que era simultaneamente o chefe do Estado Maior General das Forças Armadas. Não bastava ganhar eleições: era preciso contar com a boa vontade dos militares. Era ainda preciso ser de esquerda. A Constituição de 1976 impunha os objectivos do socialismo revolucionário, incluindo “a apropriação colectiva dos principais meios de produção”. O esquerdismo funcionava assim como uma fonte de legitimação do poder mais importante do que as formalidades democráticas.

Desde o Verão de 1975, poucos como Sá Carneiro foram tão claros e veementes na recusa deste regime. Denunciou o militarismo. Negou o marxismo. E declarou, para escândalo geral, não partilhar o objectivo de alcançar uma “sociedade sem classes”, então um dos dogmas mais sagrados do novo regime e aceite igualmente pelo PS, pelo PCP e por todas as facções do MFA. Para as forças de esquerda nunca houve dúvidas: Sá Carneiro, por mais que falasse de “socialismo personalista”, não era dos deles. Também nunca reconheceram ao seu partido, rebaptizado como Partido Social Democrata em 1976, um lugar à esquerda. O público em geral também não. Em meados de 1978, segundo uma sondagem de opinião, 35 % dos portugueses situavam o PSD à direita, 23 % ao centro e apenas 2 % à esquerda. Em média, o PSD estava muito claramente à direita. Os líderes do PSD, no entanto, jamais admitiram a validade desta impressão. Nas condições da “semi-democracia”, um partido que se declarasse à direita estaria apenas a autoexcluír-se do poder. Não quer dizer que a direita não existisse. 26 % dos portugueses situavam-se à direita, e 39 % à esquerda (35 % não sabiam onde se situar). Mas quando, em vez do público em geral, os inquiridores interrogaram aqueles a quem chamaram “líderes de opinião”, isto é, as pessoas aparentemente mais interessadas e envolvidas na vida política, a desproporção aumentou: 62 % situavam-se à esquerda, e apenas 28 % à direita. Quem queria, de algum modo, participar politicamente sabia que era mais vantajoso fazê-lo à esquerda. Sá Carneiro era colocado à direita por 34 % dos inquiridos em 1978, no centro por 16 % e na esquerda por 2 %. Tinha uma imagem mais marcada à direita do que Soares tinha à esquerda (Soares era colocado à esquerda por 27 % dos inquiridos, ao centro por 18 % e à direita por 4 %). Sá Carneiro, no entanto, nunca se identificou como “de direita”. Não porque quisesse manter um equívoco, mas precisamente para não alimentar equívocos. As direitas estavam, quisessem ou não, identificadas com o Estado Novo, por mais que os dirigentes do Estado Novo tivessem feito questão de dizer que não eram de direita, mas apenas apoiados pelas direitas. Ora, o Estado Novo não estava apenas associado à opressão, mas a um desnorte sem remédio e a uma derrota sem atenuantes, como se vira em Abril de 1974. Não era apenas por causa das restrições da “semi-democracia” que havia tão pouca gente de direita. Para quem, como Sá Carneiro condenava intransigentemente o marxismo que então definia as esquerdas, declarar-se de “direita” era permitir às esquerdas explorar o equívoco do nome para o liquidar por associação ao Estado Novo. Foi esse equívoco que ele não quis criar. Tanto mais que ele rejeitara o salazarismo e acabara na oposição a Marcello Caetano. Na sua vida, também não estava em sintonia com os preconceitos que então identificavam os conservadores. Mesmo assim, as esquerdas identificaram-no logo como o mais perigoso “agitador” daquilo que Mário Soares, em 1977, designava como a “onda das forças reaccionárias, para não dizer fascistas”.

Não foram apenas as esquerdas que se irritaram com a linguagem e a atitude de Sá Carneiro. As direcções partidárias das direitas também não gostaram dele. É que muita gente à direita, habituada à existência tecnocrática e apolítica a que a reduzira o salazarismo, dispunha-se a colaborar com o poder militar e a esquerda governamental, tal como antes tinha colaborado com Marcello Caetano. Sá Carneiro tinha muita dessa gente consigo no PSD. Estavam com ele porque as esquerdas os consideravam de “direita”, por eles serem católicos ou levarem a sério os manuais de economia não-marxista. Mas em 1976 já não se sentiam ameaçados pelo regime. O poder militar e as esquerdas governamentais queriam sobretudo manter-se equidistantes do PCP e da “reacção”. A Igreja Católica tinha sido prudentemente deixada em paz. Depois da lei do divórcio, nem sequer tinha havido uma lei do aborto. As esquerdas governamentais hesitavam em desfazer-se das herdades e bancos expropriados em 1975, mas na prática já tinham reconhecido que a “recuperação económica” não se poderia fazer pelo socialismo. Por isso, esforçavam-se por obedecer às receitas do FMI, e tinham até pedido a integração na CEE. Pior ainda, em Paris, onde então ainda se decidia o que os lisboetas pensavam, o marxismo e a União Soviética caíram subitamente em desgraça, e os filósofos da moda (muitos deles antigos esquerdistas) tripudiavam agora sobre as verdades que em 1974 pareciam eternas. O “pensamento de esquerda” consistia agora em lamentações sobre a “crise do pensamento de esquerda”. Com os seus ministros submetidos e os seus intelectuais em processo de reciclagem, as esquerdas governamentais tinham perdido o triunfalismo doutrinário de 1974-1975. Os tecnocratas da direita podiam assim menosprezar o condicionamento interno do militarismo e do esquerdismo, confiando na força do condicionamento externo, representado pela CEE e pelo FMI. Já tinha sido essa a esperança deles no tempo do Estado Novo, a quem auguraram um passamento suave às mãos do comércio livre europeu. A CIA, dirigida pelo benemérito Carlucci, sempre muito amigo do Dr. Soares, concordava com eles.

Esta “liberalização” pela porta do cavalo nunca entusiasmou Sá Carneiro. Sabia ser impossível dar confiança aos empresários enquanto tudo continuasse dependente dos humores incertos do poder militar e esquerdista, que continuava a não querer condenar o Partido Comunista, nem a podar os seus feudos. Acima de tudo, a livre-empresa nunca interessou politicamente a Sá Carneiro senão como atributo de cidadãos independentes e activos numa democracia: já tinha sido isso que o separara do salazarismo. Sá Carneiro não se limitou a reivindicar condições de crescimento económico – fê-lo em nome do que ele chamou “clareza democrática”: o dever dos políticos, em democracia, de apresentarem opções claras de governo, e o direito do povo de as sufragar em eleições. Só assim, segundo Sá Carneiro, os políticos teriam autoridade real para cumprir os seus programas, e só assim o povo se poderia sentir verdadeiramente representado. Repare-se que nada disto tinha que ver com o “basismo” das esquerdas revolucionárias. Ao incentivar a acção do povo, as esquerdas revolucionárias não pretendiam permitir aos indivíduos debater e escolher entre várias opções, mas criar um vazio de autoridade que desse a pequenas minorias a oportunidade de dirigir os acontecimentos. Sá Carneiro não tinha a demagogia de querer ver operários deputados, ou a autoridade do estado repartida por sindicatos e comissões de moradores. Queria antes, por via representativa, obter uma real identificação da população com o poder, por forma a aumentar a autoridade e a eficácia desse poder. E isto porque, para ele, não havia na sua época outra possibilidade de dar ao poder autoridade e eficácia a não ser pela democracia.

Foi esta proposta de basear o sistema em opções claras sujeitas a sufrágio popular que verdadeiramente chocou tanto as esquerdas governamentais, como a elite tecnocrática da direita. As elites da semidemocracia não só mantinham, como até tinham aumentado, todos os preconceitos tradicionais contra o povo. Tecnocratas e esquerdistas estavam literalmente aterrorizados pelo fantasma de um povo que imaginavam revolucionário a sul, e contra-revolucionário a norte. Uma verdadeira democracia seria a guerra civil. A nível da elite, mais civilizada e vigiada de perto pelos militares, poderia certamente haver acordos, transações, até porque ninguém queria precipitar rupturas: as esquerdas governamentais não queriam empurrar as direitas para a “reacção”, e as direitas respeitáveis não queriam obrigar as esquerdas a aliar-se ao Partido Comunista. Mas que fazer do povo, boçal e desvairado, sempre pronto a deixar-se enganar por padres fascistas ou agentes de Moscovo? Esta era a época em que, depois de cada acto eleitoral, os governos respiravam de alívio e anunciavam que tudo decorrera traquilamente, como se tivessem esperado que não decorresse. Convinha assim que a governação mantivesse o estilo de uma autocracia administrativa de responsabilidade limitada, sem “política”, e mudando o statu quo só à medida das ordens do FMI ou da CEE. A alternativa de Sá Carneiro parecia à classe política instalada o caminho para confrontos desnecessários.

Os camaradas de Sá Carneiro na direcção do PSD lamentaram sempre o seu carácter “instável” e “intratável”. Tudo foi aproveitado para o denegrir. Murmuraram, para o embaraçar, acerca da sua situação marital. Como vinha do Porto, acusaram-no de representar contra eles, sensatos lisboetas da classe média, o povo católico e caceteiro das províncias do norte, cujo peso no partido eles deploravam amargamente.

Eleitoralmente, o PPD surpreendeu em Abril de 1975, mas o PSD falhou em Abril de 1976, quando a sua percentagem de votos desceu de 26 % para 24 %. Foi provavelmente o preço das hesitações e divisões da direcção. Este fracasso eleitoral determinou a via sacra de Sá Carneiro. Custou-lhe quatro anos de canseiras. O contraste entre a violência dos seus depoimentos do fim de 1975 e do princípio de 1976, quando terá pensado numa vitória, e a contenção a que teve de se submeter depois da decepção eleitoral de Abril de 1976, mostram que ele não era simplesmente um espalha-brasas, um homem de “rupturas” irresponsáveis, da guerra pela guerra. Entre 1976 e 1979, tentou jogar com o que havia. Sem ilusões, sob pressão dos seus camaradas da direcção do PSD, esforçou-se por convencer o Presidente Eanes a apadrinhar uma aliança reformista alargada, e tentou negociá-la com Soares. Nunca teve resultados. Pelo contrário, tanto Eanes como Soares fizeram constar que todos os acordos seriam possíveis, se não fosse Sá Carneiro. Ele não era o intermediário: era o obstáculo. Os dirigentes do PSD ouviam isto, repetiam-no uns aos outros, convenciam-se. Obrigaram-no a demitir-se uma vez da liderança, e desertaram em massa do partido sempre que ele os venceu. Sá Carneiro triunfou no seu partido porque, se o PSD era uma força social, politicamente não era nada sem Sá Carneiro, a não ser uma espécie de apêndice do PS: os militantes, como era natural, nunca gostaram desta subalternidade altamente apreciada pelos seus líderes. A fraqueza e a falsidade destes arranjos, que Sá Carneiro previu, jogaram a favor dele.

Tudo isto fez com que, entre 1976 e 1980, a fronteira política em Portugal passasse por dentro do PSD: era ali que se poderia optar entre a semidemocracia e a democracia. E foi este facto que deu o protagonismo a Sá Carneiro. Em 1979, o desespero geral trouxe-lhe novos recursos políticos, sob a forma de uma aliança com o CDS, um partido que, depois de aproveitar para crescer à direita do PSD em 1976, tentara colher os frutos do poder colocando-se à sua esquerda, em aliança com o PS, em 1978. Sá Carneiro pôde finalmente optar pela célebre “bipolarização”. A bipolarização não era a guerra civil. Era a instituição de um verdadeiro equilíbrio e alternância, em pé de igualdade, entre duas forças políticas distintas e com programas claros, mas ambas comprometidas com a causa da democracia pluralista. Obviamente, Sá Carneiro não propunha isto para ficar na oposição. Esperou que a bipolarização empurrasse o PS mais para a esquerda, e consolidasse um bloco à direita do PS, que ele se propunha chefiar. Nas circunstâncias do país, ele sabia que este bloco poderia alcançar uma vitória eleitoral.

Um “projecto de liberdade”.

Tal como Eanes e Soares, os outros actores principais da política entre 1976 e 1980, Sá Carneiro mudou constantemente de táctica. Mas enquanto ninguém sabia o que Eanes ou Soares queriam para o país, sabia-se o que Sá Carneiro se propunha fazer. Eanes sofria das ambiguidades típicas do poder militar, que procurava não se identificar com nenhuma força política. Soares e as esquerdas governamentais, ainda de luto pelo colectivismo, evitavam assumir claramente alternativas (a Terceira Via só apareceu vinte anos depois). Sá Carneiro sabia o que queria e dizia-o abertamente. A arte da manobra e do sound bite de nada lhe teria valido sem isso.

A clareza de Sá Carneiro não derivava de uma ilusão democrática, mas da sua confiança no povo. Esta confiança não era feita de carinho pelos humildes, ou de ousadia populista. Era feita, em primeiro lugar, de uma necessidade lógica e política: numa democracia, qualquer poder político não verdadeiramente democrático tenderia a ser um poder falso e fraco. Era o caso dos governos portugueses entre 1976 e 1980. Ora um poder fraco, era um poder ineficiente, o que, em vez de poupar confrontos, só aumentava frustrações e revoltas. Numa democracia, era preciso envolver os cidadãos, ou sofrer as consequências da sua indiferença ou indignação. Quando Sá Carneiro dizia que o regime estava em perigo, não pensava, como as esquerdas quando estas diziam o mesmo, no golpe iminente de forças organizadas, mas no enfraquecimento das instituições, na estagnação económica, na degradação moral. Em segundo lugar, Sá Carneiro apercebera-se mais do que ninguém da imensa impaciência que o regime criara. Essa impaciência não se limitava ao que as esquerdas chamavam “reacção”, e que incluía o meio milhão de retornados e os vexados do PREC. A impaciência estendia-se aos próprios simpatizantes e militantes das esquerdas. Não era apenas resultado de carências, mas também de uma nova abundância, que ninguém queria perder, que se tinha tornado base de uma nova identidade. Portugal começdara a mudar desde a década de 1950. Os portugueses iam deixando de ser lavradores em pequenas comunidades do interior para passarem a ser consumidores nos subúrbios do litoral. Evoluíra-se da horta ao supermercado. Esse consumo criara novas identidades, novos valores, novas atitudes políticas. Ora, sob o Estado Novo, as esquerdas tinham aparecido inicialmente como uma porta de saída: representavam o fim da guerra, a liberdade individual, a experiência de coisas novas. Ao fim de cinco anos de poder, porém, as esquerdas só tinham conseguido produzir um regime que Manuel de Lucena descreveu como o “corporativismo sem Salazar”, no meio de um descalabro financeiro que traduzia sobretudo a falta de autoridade do estado. Não por acaso, muitos dos mais violentos críticos do regime eram antigos esquerdistas desiludidos.

Sá Carneiro soube explorar estas desilusões. Com ironia, comparou a “semidemocracia” ao Estado Novo, e lamentou a natureza “reaccionária” das esquerdas. De uma certa forma, ele veiu a corporizar o anti-situacionismo. A classe política detestava-o como um imprevisível troublemaker. Mas em 1979, Sá Carneiro era o chefe partidário com quem mais portugueses simpatizavam. Ao seu projecto, chamou Sá Carneiro um “projecto de liberdade”. Era, perante a confusão dos militares e das esquerdas governamentais, um projecto de clarificação. Em primeiro lugar, assentava no reconhecimento da separação entre o estado e uma sociedade civil, definida pelo direito dos cidadãos à propriedade individual e à iniciativa privada. Em segundo lugar, numa clara opção pelo Ocidente no confronto com a União Soviética (em vez do neutralismo em vigor desde 1975). Nessa medida, Sá Carneiro representou em Portugal o ímpeto de mudança do sistema sócio-económico e de afirmação dos valores da democracia ocidental que, no fim da década de 1970, reanimou a política na Europa e na América. O projecto de Sá Carneiro mobilizou indivíduos que se libertavam das limitações sociais e dos preconceitos ideológicos das décadas anteriores. Pode-se perguntar porque é que, de todos os políticos portugueses, coube a um homem reservado, de uma família tradicionalista do Porto, liderar esta transformação? Talvez porque, pessoalmente, ninguém, entre os líderes políticos, tivesse mudado tanto como ele: ao contrário de Soares ou de Cunhal, filhos esquerdistas de pais esquerdistas, Sá Carneiro, mais novo do que eles, rompera com o seu meio, e encontrara uma vida nova. Só ele, entre os líderes dos grandes partidos, tinha uma experiência íntima tão agitada, tão complexa, como a sociedade em que esses líderes procuravam agir.

Em 1979, na Aliança Democrática, com o CDS, o PPM e os desiludidos da esquerda, Sá Carneiro tentou ultrapassar as tentações situacionistas das direitas. A AD não consistiu somente num entendimento partidário. Foi, como disse Adelino Amaro da Costa, um “fenómeno sociológico”: a última força política em Portugal a dominar as ruas. Para se defender, a esquerda tentou, inutilmente, inventar watergates contra Sá Carneiro. Mas era nos corredores do poder que ele enfrentava as questões mais exasperantes. Como recordou Vasco Pulido Valente, “a frase eu, que não sou político... [...] ouviu-se [...] durante os primeiros seis meses, a vários dos ministros mais importantes e a propósito dos mais importantes problemas”. Os técnicos apolíticos que rodeavam Sá Carneiro continuavam a não perceber. Não percebiam, por exemplo, que mal havia em aplicarem as instruções liberalizantes do FMI ou da CEE debaixo da compreensiva tutela do general Eanes, ou até na alegre companhia do Dr. Soares. Ressentiram a sujeição das “finanças” à “política”. Não gostaram do entusiasmo da população nos comícios, a gritar “Eanes para a Sibéria”. Horrorizaram-se com o modo como Sá Carneiro arriscou tudo na batalha contra o general Eanes em Dezembro de 1980. A certa altura, já não temeram que ele perdesse: desejaram que ele perdesse.

Sá Carneiro não escolheu este combate por qualquer pulsão suicida, mas por uma questão política. Não era um contabilista nem um funcionário, capaz de “servir” sob qualquer gerência. Ao contrário dos funcionários e contabilistas que têm fingido de chefes políticos em Portugal, não tinha medo de perder. Era um líder político com um bom projecto, e confiava na população. Se perdesse, voltaria para uma nova batalha, como fizera sempre. No almoço do dia 4 de Dezembro de 1980, explicou o seu plano. Ia deixar o governo aos dirigentes apolíticos do PSD. Dava-lhes um ano, até eles se “espetarem”. Depois, formaria um novo partido, juntando os militantes do PSD e a direcção do CDS. Então, voltaria ao ataque. De facto, como ele tinha previsto, eles “espetaram-se”. Mas ele já não estava lá.

O seu percurso mostra que Sá Carneiro não tinha da política uma ideia romântica, de grandes gestos e palavras sem consequência, nem uma ideia positivista, de gestão técnica das coisas, mas uma ideia clássica, apropriada à democracia: tratava-se de envolver os cidadãos seus pares num movimento, legal e razoável, de decisão acerca da vida em comum. Sem Sá Carneiro, o Conselho da Revolução acabou, e os bancos foram privatizados. Mas nunca mais se fez política como ele fazia. E no fundo era essa política, mais do que as reformas legislativas, a substância principal do “projecto de liberdade”.

sexta-feira, novembro 19, 2004

A propósito do poste do Luciano sobre Cuba

Este texto do Mário Vargas Llosa é dedicado às nossas putas tristes.

Las "putas tristes" de Fidel

EL PAÍS

Entre los defectos de Fidel Castro no figura la disimulación. En los 45 años que lleva en el poder -la dictadura más larga en la historia de América
Latina- nunca ha pretendido engañar a nadie sobre la naturaleza de su régimen ni sobre los principios en que se funda su manera de gobernar.

Cuba vive bajo un sistema "comunista" (son sus palabras), que, según él, es más justo, más igualitario y más libre que las putrefactas democracias capitalistas, a las que en todos sus cacofónicos discursos el "comandante" manifiesta siempre el soberano desprecio que le merecen, y a las que les pronostica que más pronto que tarde se desmoronarán bajo el peso de su corrupción y sus contradicciones internas. Es posible que Castro sea la única persona en Cuba que todavía crea esas sandeces, pero, sin duda, se las cree, y como en la isla reina un totalitarismo vertical donde el Jefe Máximo tiene poderes omnímodos y es la única fuente de la verdad, el sistema funciona en razón de semejantes convicciones, machacadas por la propaganda unidimensional ante los cubanos como si fueran axiomas revelados. (Es por esta razón que Reporteros Sin Fronteras acaba de situar a Cuba en el lugar 166, entre 167 países examinados, en lo que concierne a la libertad de prensa, es decir, en el penúltimo lugar: el último le corresponde a Corea del Norte).

El "comandante" lo ha hecho saber hasta la saciedad: como el régimen comunista cubano es superior a las democracias occidentales no va a cometer la debilidad de incurrir en aquello que le piden sus enemigos con el solo propósito de destruirlo; es decir, admitir elecciones libres, libertad de expresión, de movimiento, tribunales y jueces independientes, alternancia en el poder, etcétera. Esas instituciones y prácticas son cortinas de humo para la explotación y la discriminación que proliferan en las democracias "social-pendejas", exquisita vulgaridad inventada por Castro para denigrar a los socialistas y socialdemócratas que lo critican y que son blancos constantes de sus diatribas.

¿Para qué convocaría a elecciones libres un Gobierno que cuenta con el 99,9% de la población? ¿Para sembrar la división y el caos en esa hermosa unidad sin cesuras que garantiza el régimen de partido único? Quienes piden aquellas consultas electorales, libertad de partidos políticos, prensa independiente y cosas por el estilo, quieren, en verdad, abrir las puertas de Cuba a los imperialistas empeñados en acabar con las grandes "conquistas sociales" de la revolución -¿debe incluirse entre ellas el haber enviado a los homosexuales junto a delincuentes comunes a campos de concentración en los tiempos de las UMAP?- y convertir a Cuba en una democracia neocolonial, seudoliberal y social-pendeja, donde once millones de cubanos serían explotados sin misericordia por un puñado de capitalistas yanquis.

Quienes piden semejantes cambios son, pues, pura y simplemente, enemigos de la revolución, agentes del imperialismo y deben ser tratados como delincuentes, criminales y traidores a su patria. No son meras palabras de un paranoico megalómano sino una convicción respaldada por 45 años de conducta rectilínea, en los que Castro no ha dado un solo paso atrás en semejante profesión de fe. Ésta se ha visto materializada una y otra vez en encarcelamientos masivos, una represión sistemática, brutal y desproporcionada ante la más mínima manifestación de disidencia, con escarmientos periódicos en los que reales o supuestos desafectos al sistema son juzgados y condenados, en juicios tan grotescos como los que se llevaban a cabo en la URSS estalinista, a penas feroces, entre las que, de cuando en cuando, figura la pena de muerte por fusilamiento. Que, a pesar de esta política de terror sistemático y desprecio supino a los más elementales derechos humanos, haya todavía cubanos, como el poeta Raúl Rivero y sus 75 compañeros encarcelados en la última oleada represiva, que, desde las cárceles donde se pudren en vida, mantengan vivo el espíritu de resistencia, no sólo asombra y llena de admiración: además, demuestra, como lo ha subrayado Vaclav Havel en el homenaje que acaba de rendirles, que aun dentro de las sociedades devastadas por el oscurantismo más prolongado y el horror más abyecto, la libertad encuentra siempre la manera de sobrevivir.

Que este régimen tenga todavía partidarios en el extranjero no tiene por qué sorprender. El odio que la sociedad abierta inspira a muchos, los lleva a preferir una dictadura "social" a la democracia, y por eso deploran la caída del muro de Berlín, la desintegración de la Unión Soviética y la conversión de China Popular a un capitalismo desenfrenado y "salvaje" (aquí sí es admisible la expresión). Desde luego, yo creo que quienes piensan así están equivocados y que muchos de ellos no podrían soportar 24 horas en una sociedad como la que defienden, pero, si creen eso, es lógico que se muestren solidarios de una satrapía que encarna sus propios ideales y aspiraciones políticas. Hay que reconocerles cuando menos una indiscutible coherencia en su proceder.

No la hay, en cambio, sino incongruencia y confusión, en que intelectuales, políticos o Gobiernos que se dicen democráticos, sirvan los intereses de un régimen que es el enemigo número uno de la cultura democrática en el hemisferio occidental y, en vez de mostrarse solidarios con quienes en Cuba van a prisión, viven como apestados, sometidos a toda clase de privaciones y tropelías o dan sus vidas por la libertad, apoyen a sus verdugos y acepten jugar el lastimoso papel de celestinas, cómplices o "putas tristes" -para emplear un término de actualidad- de la dictadura caribeña.

Es un insulto a la inteligencia pretender hacer creer a cualquiera que haya seguido someramente el casi medio siglo del régimen cubano, que la manera más efectiva de conseguir "concesiones" de Castro es el apaciguamiento, el diálogo y las demostraciones de amistad con su tiranía. Y lo es porque el propio Fidel Castro se ha encargado de manera contundente de disipar cualquier malentendido al respecto: él tiene cómplices, cortesanos, sirvientes, que colaboran con su política, sus designios, su Gobierno y su modelo político-social, de los que ninguno de sus numerosos "amigos" lo ha hecho apartarse jamás un milímetro. Es verdad que, a veces, algunos de esos politicastros convenencieros o intelectuales en pos de credenciales progresistas que van a retratarse con él y a echarle una mano publicitaria reciben como regalo un preso político, que luego exhiben como coartada de su duplicidad. Pero esa asquerosa trata de presos en vez de mostrar un ablandamiento del régimen -que reemplaza casi en el acto los que regala por otros nuevos- es más bien una señal flagrante de su vileza e inhumanidad.¿A qué viene todo esto? A que el Gobierno español de Rodríguez Zapatero acaba de hacer pública su intención de apandillar un movimiento para que la Unión Europea, que, luego de los fusilamientos y condenas a los 75 disidentes había optado por una política de firmeza ante la dictadura cubana mientras no hubiera progresos reales en la isla en materia de derechos humanos, rectifique y opte más bien por el acercamiento y el diálogo amistoso con Castro, es decir, por cortar toda vinculación y apoyo a sus opositores. El pretexto es que la "firmeza" no ha dado resultados. ¿Qué resultados han dado la cobardía y la complicidad con el régimen cubano de todas esas "democracias" latinoamericanas que votan a favor de Fidel Castro en las Naciones Unidas y multiplican los gestos de simpatía hacia él con el argumento de que es preciso ser solidarios con "el hermano continental"? Por lo menos la política adoptada por la Unión Europea ha enviado un mensaje claro a los millones de cubanos que no pueden protestar, que no pueden votar, que no pueden escapar, de que no están solos, que no han sido abandonados y que las democracias occidentales están moral y cívicamente de su lado en ese combate en el que, como ayer los checos, los polacos, los rumanos, los rusos y tantos otros, tarde o temprano vencerán.

Acercamiento, diálogo, diplomacia privada, son eufemismos mentirosos para lo que, hablando claro, es una abdicación vergonzosa de un Gobierno que, en clara contradicción con sus orígenes y su naturaleza democrática, decide contribuir a la supervivencia de una dictadura tan ignominiosa e innoble como la de Franco, y una puñalada trapera a los innumerables cubanos que, como los millones de españoles bajo el franquismo, sueñan con vivir en un país sin censuras, ni torturas, ni fusilamientos, y sin la asfixiante monotonía del partido único, la mentira, la vigilancia y el caudillo omnipresente.

Lo más criticable en este caso es que, los gobernantes españoles, a menos de haber caído víctimas de una súbita plaga de angelismo pueril, saben perfectamente que el cambio que proponen a sus aliados europeos respecto a Cuba, si prosperara, no conseguiría la más mínima apertura del régimen, y, por el contrario, echaría a sus desfallecientes pulmones una bocanada de oxígeno (Fidel Castro ya dijo públicamente que la decisión del Gobierno español era "la correcta"). ¿Por qué lo hacen, entonces? Para consumo interno. Para probar que también en este ámbito hay una ruptura radical con el Gobierno anterior. O para dar un poco de aliento a esos remanentes tercermundistas y estalinianos que, aunque felizmente muy minoritarios, existen todavía dentro del socialismo español, muy rezagado en este respecto de sus congéneres británicos, franceses, alemanes y nórdicos, donde los socialistas no tienen el menor complejo de inferioridad frente al Gulag tropical cubano.

Mi esperanza es que esos magníficos "social-pendejos" europeos impidan que esta iniciativa lamentable se materialice. Ella debe ser denunciada y combatida como lo que es: un acto demagógico e irresponsable que sólo servirá para apuntalar a la más longeva dictadura latinoamericana. No debemos permitir que la España democrática, moderna y europea que en tantos sentidos es un ejemplo para América Latina se convierta en la "puta triste" de Fidel.


Mário Vargas Llosa

[Pedro Marques Lopes]

sexta-feira, novembro 12, 2004

PARTÍCULAS ELEMENTARES

por Luciano Amaral

Paira sobre o tema da imigração uma perspectiva genericamente beata, que é difícil de desmontar sem receber alcunhas desagradáveis. Os elementos principais dessa visão subdividem-se no entendimento da imigração, por um lado, como o equivalente da liberdade de circulação internacional e, por outro, como um contributo único para o enriquecimento cultural das sociedades que aceitam imigrantes. Mas estamos aqui no domínio da mais tosca confusão intelectual. Se a liberdade de circulação pode ser vista como um bem absoluto, o mesmo não acontece com a imigração. Muito pelo contrário, ela é um sinal de desequilíbrios profundos, tanto em termos de prosperidade como de direitos cívicos, entre as sociedades que exportam pessoas e as que as importam. Da imigração não resulta também necessariamente um enriquecimento cultural: a imigração pode, em vez disso, corresponder a um empobrecimento. É o que acontece hoje em dia quando, por exemplo, em muitos países europeus são introduzidos hábitos de discriminação sexual deles desconhecidos mesmo nos mais distantes e tenebrosos dias da Idade Média.
A plena compreensão dos problemas que a imigração para a Europa nos dias que correm coloca obriga a limparmos o caminho destas mitologias. Só assim podemos começar a falar seriamente sobre o assunto. Esta imigração tem um carácter de estranha anomalia. Todas as grandes vagas de imigração do século XX ocorreram para países atravessando períodos de acelerado crescimento económico. Ora, os imigrantes de diversas origens que hoje acorrem à Europa fazem-no para economias a passo de caracol. O que atrai os imigrantes não é a escassez de mão-de-obra para alimentar o crescimento, mas a escassez de mão-de-obra para alimentar o famoso Estado Social europeu. Eles são necessários porque os europeus não se reproduzem no número suficiente que garanta a substituição de gerações e a sobrevivência de subsídios de desemprego e pensões de reforma.
Os europeus não se reproduzem porque vivem no mundo tardo-adolescente da realização pessoal, do lazer, do divertimento perpétuo e da sexualidade inconsequente. Muitos europeus querem ter carreiras profissionais ambiciosas e bem sucedidas. O que os impede, desde logo, de exercerem certas profissões pouco concordes com as suas expectativas, nas quais, em vez deles, se vêm a alistar os imigrantes. Para a prossecução destas carreiras os filhos são um óbvio estorvo. Outros preferem a perpétua irresponsabilidade do desemprego subsidiado. Afinal há empregos disponíveis, mas porquê desempenhar tarefas desagradáveis quando nos espera um rendimento maior não trabalhando? Uns e outros querem aproveitar as múltiplas oportunidades de lazer que a indústria cultural e do “entertainment” oferecem, projecto que colide com a existência de umas criaturas ranhosas e sem “glamour” a arrastarem-se pelos corredores da casa. Todos querem aproveitar o êxtase da libertação sexual, que entrou no património cultural do Ocidente desde os anos 60. Há que cumprir o prazer do sexo e é possível cumpri-lo sem consequências, graças à contracepção generalizada. E se algo corre mal, resta o aborto, uma prática cada vez mais aceite e aceitável. Quase nenhum opróbrio (antes pelo contrário) recai hoje sobre as identidades homossexuais, as quais também não favorecem o aumento da natalidade. No domínio dos costumes, onde antes existia a hipocrisia reina a afirmação da extravagância, feita de forma muitas vezes brutal.
Há uma certa beleza neste mundo inteiramente desprovido de repressão e dever, e onde tudo é passível de escolha por catálogo – da identidade pessoal aos filhos que se quer ou não ter. Mas há também um lado trágico, que um escritor francês semi-genial, Michel Houellebecque, tão bem descreve nos seus livros – como, por exemplo numa das grandes distopias do século XX, “As Partículas Elementares”. Os heróis de Houellebecque são todos filhos de pais e mães ausentes, demasiado ocupados com sonhos pessoais para cuidar dos filhos. E todos eles têm filhos (ou nem sequer os têm) que essencialmente ignoram. Este desamor pelos filhos é mais um dos sinais daquele que é o grande tema “houellebecquiano”, a cisão entre amor e sexo. Tal como crescentemente a sociedade ocidental, as personagens de Houellebecque são incapazes de acumular estas duas dimensões.
Seria despropositado, a pretexto de tudo isto, lançar uma grande diatribe moralista. Resta-nos, numa impecável postura liberal, simplesmente constatar tais comportamentos. Mas a verdade é que deles resultam consequências políticas que importa analisar. Em mais uma demonstração de como os extremos se tocam, enquanto os europeus de velha cepa se deleitam neste mundo de liberdade sem limites, vão aceitando, pela adopção da equivalência “multiculturalista”, algumas das mais primitivas formas de opressão feminina. Basta uma tarde no centro de Londres para ver o inteiro repositório misógino de certas formas de islamismo: mulheres veladas ou inteiramente cobertas, desprovidas de identidade pessoal, provavelmente originárias de uma família poligâmica, nela submetidas aos ditames maritais, talvez vítimas de excisão vaginal. À sombra do multiculturalismo, discute-se seriamente hoje em dia em França a possibilidade de ser introduzida no ordenamento jurídico nacional a lapidação para certos crimes, embora restrita à comunidade muçulmana. Sendo verdade que nem todo o islamismo assume formas tão extremas, não podem restar dúvidas de que uma larga fracção o faz. Ora a população islâmica na Europa cresce de dia para dia. Em França 10% da população são hoje muçulmanos e dentro de 20 anos, a continuarem os actuais comportamentos demográficos, o mesmo acontecerá a mais de metade dos jovens. Quadro semelhante ocorre na Alemanha e na Holanda. Já hoje em Berlim são mais os muçulmanos do que os católicos.
Mas não se esgotam aqui as contradições da sociedade europeia para as quais a imigração dá um contributo fundamental. Outra é a que decorre da ligação entre a importação permanente de mão-de-obra e a sobrevivência do “welfare state”. Trata-se de um mecanismo de estranha perversidade: os europeus recusam-se a entrar em certas profissões desqualificadas, a isso preferindo o desemprego e o subsídio que ele garante. Mas como elas têm de ser desempenhadas, os imigrantes são convidados a fazê-lo. Aceitam condições de trabalho e remunerações intoleráveis para um europeu original. Já os seus filhos recusam o mesmo destino. Não só as suas expectativas são mais elevadas, como, sendo cidadãos plenos, recorrem livremente às esmolas do “welfare state”. É assim oferecido à segunda geração um incentivo ao desemprego. E deste modo se alimenta a elevada taxa de desemprego que caracteriza as sociedades europeias, a qual tem de ser coberta por novos imigrantes, que voltam a aceitar horríveis condições laborais. Também aqui estamos no império da esquizofrenia política: afinal o mais sofisticado modelo de protecção social não dispensa a existência de uma subclasse permanente, que vive longe dos direitos laborais, cívicos e políticos dispensados aos cidadãos completos.
Não se deve inferir daqui a necessidade de restrição da imigração. O que tem de mudar, sob pena de consequências graves, é a organização política da Europa. As fronteiras deverão permanecer essencialmente abertas (com um mínimo natural de restrições) – é obrigatório à consciência liberal. Mas na impossibilidade de mudar os hábitos de reprodução dos europeus ou a sua disponibilidade para tarefas menos gratificantes, deve-se, pelo menos, evitar o pior. Por um lado, evitar a existência de uma dupla categoria de membros da “underclass”: os imigrantes propriamente ditos e os filhos de imigrantes com baixa escolaridade e entregues à dependência assistencial do Estado. Por outro, evitar o aparecimento de comportamentos que violam a consciência liberal dos europeus, nomeadamente aqueles que impõem humilhações físicas e morais às mulheres. Ao “multiculturalismo” deveria substituir-se a tentativa descomplexada de impor a “assimilação”: levar os imigrantes a aprenderem a língua nacional e (quando existam) reprimir hábitos seus que sejam chocantes. Na ausência destes esforços, a Europa resvalará (já resvalou um pouco) para a criação de uma intolerável sociedade neocolonial: europeus brancos subsidiados na reforma e no desemprego, alimentados por europeus de cor ou imigrantes afundados em deploráveis condições de vida. Para aí caminhamos. Mas talvez antes disso tudo piore ainda mais.

WE HAVE TO BE SMARTER II *

por Rodrigo Moita de Deus

Donald Rumsfeld publicou há poucas semanas um importante artigo sobre a guerra contra o terrorismo. A campanha eleitoral Americana e as posições ideológicas extremadas, têm afastado o debate sobre a questão concreta. Mas mesmo quem se encontre de um outro lado da barricada tem de admitir que o problema existe e que o Ocidente está em guerra. Aqui ficam alguns pontos para a polémica.

O diagnóstico da situação actual

A invasão do Afeganistão e do Iraque permitiram aos EUA controlar estes dois cenários e numa visão mais abrangente, permitiram controlar o fenómeno do terrorismo islâmico. O problema não está resolvido, está apenas controlado. Se é admissível que o terrorismo tem diminuído (pelo menos estagnado), a situação em ambos os cenários é insustentável a médio prazo. Não existem condições sociais e políticas para manter um empenho de forças debaixo de fogo durante tanto tempo.

Por outro lado, qualquer recuo no Afeganistão e no Iraque representaria uma vitória dos grupos radicais, provando que o Ocidente pode ser vencido através de um conflito de baixa intensidade. Esses grupos radicais (de carácter internacionalista) podiam então concentrar as suas forças em velhos projectos adiados, como é o caso da destabilização do poder nos países árabes considerados moderados. A “queda” de um destes países às mãos do fundamentalismo traria novas variáveis ao problema: Teria ou não um efeito de contágio? Obrigaria ou não a nova intervenção preventiva? Ainda que se trate de um exercício de especulação é possível supor que a “institucionalização do conflito” é o pior que podia acontecer ao ocidente.

A situação interna nos países que apoiaram a intervenção é também um factor a ter em conta. Com as opiniões públicas distantes do perigo que representa o fundamentalismo islâmico e a ser afectada – directa ou indirectamente – pelos custos da guerra ao terrorismo, é cada vez mais difícil garantir os níveis de apoio que até agora se têm verificado. Como Ho Chi Min bem ensinava, o tempo corre sempre a favor dos mais fracos.

Qual é o balanço que podemos fazer desta guerra contra o terrorismo depois de três anos e duas batalhas. Duas ocupações militares instáveis e a mais poderosa máquina de guerra que o mundo já conheceu incapaz de deter um único homem.

As demonstrações de força

Uma perspectiva pouco analisada sobre a intervenção americana no Iraque é a demonstração de força que representou. Em pouco mais de uma semana, um Estado moderno dotado de mecanismos de defesa modernos, entrou em perfeito colapso, numa lição para outros países que ousem ameaçar a segurança interna dos Estado Unidos. Ou seja, foi uma exibição de poder militar, pretendendo com isso ter um efeito dissuasor sobre potenciais inimigos.

Sobre este ponto, é importante salientar que para as elites pensantes americanas, foi tanto ou mais preocupante a destruição parcial do Pentágono que o ataque às Torres Gémeas. O sistema nervoso central da defesa dos Estados Unidos da América foi concebido para sobreviver a quase todas as eventualidades e ataques exteriores. “Quase todos” como Bin Laden bem o provou, fragilizando o mito da supremacia militar americana e tornando-se numa metáfora fundamental para compreendermos a situação global nestes últimos três anos. Quando a América exibe o seu poder militar no Iraque, manda também um recado ao mundo inteiro, com uma mensagem que não tinha passado no Afeganistão: “Que ninguém se aproveite. Chega de tolerância. Este não é o princípio da nossa decadência”.

Bem ou mal, a mensagem passou. A Síria, a Líbia e até o Irão diminuíram o tom do seu discurso e alteraram significativamente as suas políticas. Mesmo a Coreia do Norte desespera por uma garantia de paz. Nesse sentido, o “showoff” do Iraque resultou. Em pouco mais de uma semana tropas americanas estavam à porta da capital. Qualquer chefe de estado se assusta com a imagem de Saddam Hussein, outrora garboso líder, escondido num buraco.

Porém, existe um reverso para esta medalha. As demonstrações de força podem ser contraproducentes. As demonstrações de força provocam réplica e em última instância o descontentamento das opiniões públicas, tornando-se num argumento para o recrutamento de novos terroristas. As réplicas também provocam novas demonstrações de força (o caso israelita demonstra-o com extraordinária clarividência). Acresce ainda que as demonstrações de força, quando repetidas, perdem o efeito dissuasor reforçando a confiança dos combatentes.

Sobre a inteligence

Dita e repetida foi a falência do sistema de informações ocidentais no dia 11 de Setembro. Se é verdade que os níveis de defesa dos países ocidentais têm-se revelado particularmente eficazes em prevenir novas tragédias, é igualmente verdade que as “agências” internacionais não conseguem adoptar uma postura pró activa no combate ao fundamentalismo.
A reforma dos serviços de informação americanos continua adiada e curiosamente os serviços europeus têm-se revelado bastante mais versáteis. A eficácia que a CIA demonstrou para lidar com o desmembramento da União Soviética prova apenas a falta de tacto com que tem tratado dos assuntos árabes.

Um dos melhores exemplos desta falta de preparação passa pelo papel de Condolezza Rice. A conselheira de segurança do Presidente é sem dúvida uma mulher brilhante. Mas pedir a uma especialista em assuntos soviéticos que analise a questão muçulmana é o mesmo que encomendar a um canalizador a alteração do sistema eléctrico lá de casa.

Sempre Israel

Um estudo jurídico português sobre o direito em países muçulmanos provava a relação directa entre a aprovação de leis de inspiração corânica nos países árabes e a derrota na guerra dos sete dias. Aliás, ninguém com bom senso pode discutir essa relação directa entre o problema israelita e o fundamentalismo islâmico.

Especialmente nesse sentido a intervenção no Iraque podia ser benéfica. A presença de uma poderosa força militar ocidental criava condições de segurança para Israel discutir a paz com os palestinianos sem se preocupar com a pressão dos seus incómodos vizinhos. Infelizmente teve o efeito contrário. O plano de Bush e Sharon acabou por esbarrar na intransigência dos colonos e nenhum deles teve a arte ou a força de impor a sua vontade.

Esta incapacidade de resolver o problema palestiniano deu a oportunidade aos fundamentalistas de apresentarem a invasão do Iraque como uma forma dos americanos protegerem Israel. Uma mensagem que é repetida à exaustão em mesquitas do mundo inteiro.

A guerra contra o terrorismo

O modelo da guerra contra o terrorismo tem de ser remodelado. O Ocidente aplica fórmulas de uma velha cartilha, quando os desafios são novos e inéditos. O terrorismo é global e internacionalista. O inimigo não é identificável por farda ou arma. Não tem estado, nação ou leis. Considera qualquer meio aceitável e não está sujeito a qualquer convenção internacional. Não aceita argumentos ou racionalidade. Tem a legitimidade moral de quem vive e morre em nome de Deus.

Por isso mesmo, esta não é uma guerra para grandes exércitos. Exige bisturi em vez do velho machado. Pequenos grupos de comandos - altamente preparados - em vez de contingentes de tropas regulares do Missouri. Homens que conheçam o Islão e os Islâmicos. Que falem e compreendam árabe.

O terrorismo é também uma guerra que exige tempo de antena. Sem os minutos de televisão não existe terrorismo. A intervenção directa de grandes contingentes é o mesmo que apontar holofotes a um espelho, alimentando ainda mais o monstro. A guerra contra o terrorismo só pode ser suja e silenciosa. Os resultados demonstram-no. Digam o que disseram, as Forças Armadas, os políticos e o sistema americano, continua melhor preparado para enfrentar tanques soviéticos que suicidas iraquianos.

O Ocidente tentou matar a mosca com um obus de canhão. A mosca, sabe-se, sobreviveu. Os danos colaterais do disparo, sabe-se, são imensos.


* Frase utilizada por John Kerry no segundo debate