O Acidental LONG PLAY

Só para quem gosta de ler

sexta-feira, novembro 12, 2004

PARTÍCULAS ELEMENTARES

por Luciano Amaral

Paira sobre o tema da imigração uma perspectiva genericamente beata, que é difícil de desmontar sem receber alcunhas desagradáveis. Os elementos principais dessa visão subdividem-se no entendimento da imigração, por um lado, como o equivalente da liberdade de circulação internacional e, por outro, como um contributo único para o enriquecimento cultural das sociedades que aceitam imigrantes. Mas estamos aqui no domínio da mais tosca confusão intelectual. Se a liberdade de circulação pode ser vista como um bem absoluto, o mesmo não acontece com a imigração. Muito pelo contrário, ela é um sinal de desequilíbrios profundos, tanto em termos de prosperidade como de direitos cívicos, entre as sociedades que exportam pessoas e as que as importam. Da imigração não resulta também necessariamente um enriquecimento cultural: a imigração pode, em vez disso, corresponder a um empobrecimento. É o que acontece hoje em dia quando, por exemplo, em muitos países europeus são introduzidos hábitos de discriminação sexual deles desconhecidos mesmo nos mais distantes e tenebrosos dias da Idade Média.
A plena compreensão dos problemas que a imigração para a Europa nos dias que correm coloca obriga a limparmos o caminho destas mitologias. Só assim podemos começar a falar seriamente sobre o assunto. Esta imigração tem um carácter de estranha anomalia. Todas as grandes vagas de imigração do século XX ocorreram para países atravessando períodos de acelerado crescimento económico. Ora, os imigrantes de diversas origens que hoje acorrem à Europa fazem-no para economias a passo de caracol. O que atrai os imigrantes não é a escassez de mão-de-obra para alimentar o crescimento, mas a escassez de mão-de-obra para alimentar o famoso Estado Social europeu. Eles são necessários porque os europeus não se reproduzem no número suficiente que garanta a substituição de gerações e a sobrevivência de subsídios de desemprego e pensões de reforma.
Os europeus não se reproduzem porque vivem no mundo tardo-adolescente da realização pessoal, do lazer, do divertimento perpétuo e da sexualidade inconsequente. Muitos europeus querem ter carreiras profissionais ambiciosas e bem sucedidas. O que os impede, desde logo, de exercerem certas profissões pouco concordes com as suas expectativas, nas quais, em vez deles, se vêm a alistar os imigrantes. Para a prossecução destas carreiras os filhos são um óbvio estorvo. Outros preferem a perpétua irresponsabilidade do desemprego subsidiado. Afinal há empregos disponíveis, mas porquê desempenhar tarefas desagradáveis quando nos espera um rendimento maior não trabalhando? Uns e outros querem aproveitar as múltiplas oportunidades de lazer que a indústria cultural e do “entertainment” oferecem, projecto que colide com a existência de umas criaturas ranhosas e sem “glamour” a arrastarem-se pelos corredores da casa. Todos querem aproveitar o êxtase da libertação sexual, que entrou no património cultural do Ocidente desde os anos 60. Há que cumprir o prazer do sexo e é possível cumpri-lo sem consequências, graças à contracepção generalizada. E se algo corre mal, resta o aborto, uma prática cada vez mais aceite e aceitável. Quase nenhum opróbrio (antes pelo contrário) recai hoje sobre as identidades homossexuais, as quais também não favorecem o aumento da natalidade. No domínio dos costumes, onde antes existia a hipocrisia reina a afirmação da extravagância, feita de forma muitas vezes brutal.
Há uma certa beleza neste mundo inteiramente desprovido de repressão e dever, e onde tudo é passível de escolha por catálogo – da identidade pessoal aos filhos que se quer ou não ter. Mas há também um lado trágico, que um escritor francês semi-genial, Michel Houellebecque, tão bem descreve nos seus livros – como, por exemplo numa das grandes distopias do século XX, “As Partículas Elementares”. Os heróis de Houellebecque são todos filhos de pais e mães ausentes, demasiado ocupados com sonhos pessoais para cuidar dos filhos. E todos eles têm filhos (ou nem sequer os têm) que essencialmente ignoram. Este desamor pelos filhos é mais um dos sinais daquele que é o grande tema “houellebecquiano”, a cisão entre amor e sexo. Tal como crescentemente a sociedade ocidental, as personagens de Houellebecque são incapazes de acumular estas duas dimensões.
Seria despropositado, a pretexto de tudo isto, lançar uma grande diatribe moralista. Resta-nos, numa impecável postura liberal, simplesmente constatar tais comportamentos. Mas a verdade é que deles resultam consequências políticas que importa analisar. Em mais uma demonstração de como os extremos se tocam, enquanto os europeus de velha cepa se deleitam neste mundo de liberdade sem limites, vão aceitando, pela adopção da equivalência “multiculturalista”, algumas das mais primitivas formas de opressão feminina. Basta uma tarde no centro de Londres para ver o inteiro repositório misógino de certas formas de islamismo: mulheres veladas ou inteiramente cobertas, desprovidas de identidade pessoal, provavelmente originárias de uma família poligâmica, nela submetidas aos ditames maritais, talvez vítimas de excisão vaginal. À sombra do multiculturalismo, discute-se seriamente hoje em dia em França a possibilidade de ser introduzida no ordenamento jurídico nacional a lapidação para certos crimes, embora restrita à comunidade muçulmana. Sendo verdade que nem todo o islamismo assume formas tão extremas, não podem restar dúvidas de que uma larga fracção o faz. Ora a população islâmica na Europa cresce de dia para dia. Em França 10% da população são hoje muçulmanos e dentro de 20 anos, a continuarem os actuais comportamentos demográficos, o mesmo acontecerá a mais de metade dos jovens. Quadro semelhante ocorre na Alemanha e na Holanda. Já hoje em Berlim são mais os muçulmanos do que os católicos.
Mas não se esgotam aqui as contradições da sociedade europeia para as quais a imigração dá um contributo fundamental. Outra é a que decorre da ligação entre a importação permanente de mão-de-obra e a sobrevivência do “welfare state”. Trata-se de um mecanismo de estranha perversidade: os europeus recusam-se a entrar em certas profissões desqualificadas, a isso preferindo o desemprego e o subsídio que ele garante. Mas como elas têm de ser desempenhadas, os imigrantes são convidados a fazê-lo. Aceitam condições de trabalho e remunerações intoleráveis para um europeu original. Já os seus filhos recusam o mesmo destino. Não só as suas expectativas são mais elevadas, como, sendo cidadãos plenos, recorrem livremente às esmolas do “welfare state”. É assim oferecido à segunda geração um incentivo ao desemprego. E deste modo se alimenta a elevada taxa de desemprego que caracteriza as sociedades europeias, a qual tem de ser coberta por novos imigrantes, que voltam a aceitar horríveis condições laborais. Também aqui estamos no império da esquizofrenia política: afinal o mais sofisticado modelo de protecção social não dispensa a existência de uma subclasse permanente, que vive longe dos direitos laborais, cívicos e políticos dispensados aos cidadãos completos.
Não se deve inferir daqui a necessidade de restrição da imigração. O que tem de mudar, sob pena de consequências graves, é a organização política da Europa. As fronteiras deverão permanecer essencialmente abertas (com um mínimo natural de restrições) – é obrigatório à consciência liberal. Mas na impossibilidade de mudar os hábitos de reprodução dos europeus ou a sua disponibilidade para tarefas menos gratificantes, deve-se, pelo menos, evitar o pior. Por um lado, evitar a existência de uma dupla categoria de membros da “underclass”: os imigrantes propriamente ditos e os filhos de imigrantes com baixa escolaridade e entregues à dependência assistencial do Estado. Por outro, evitar o aparecimento de comportamentos que violam a consciência liberal dos europeus, nomeadamente aqueles que impõem humilhações físicas e morais às mulheres. Ao “multiculturalismo” deveria substituir-se a tentativa descomplexada de impor a “assimilação”: levar os imigrantes a aprenderem a língua nacional e (quando existam) reprimir hábitos seus que sejam chocantes. Na ausência destes esforços, a Europa resvalará (já resvalou um pouco) para a criação de uma intolerável sociedade neocolonial: europeus brancos subsidiados na reforma e no desemprego, alimentados por europeus de cor ou imigrantes afundados em deploráveis condições de vida. Para aí caminhamos. Mas talvez antes disso tudo piore ainda mais.