O Acidental LONG PLAY

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sexta-feira, novembro 12, 2004

WE HAVE TO BE SMARTER II *

por Rodrigo Moita de Deus

Donald Rumsfeld publicou há poucas semanas um importante artigo sobre a guerra contra o terrorismo. A campanha eleitoral Americana e as posições ideológicas extremadas, têm afastado o debate sobre a questão concreta. Mas mesmo quem se encontre de um outro lado da barricada tem de admitir que o problema existe e que o Ocidente está em guerra. Aqui ficam alguns pontos para a polémica.

O diagnóstico da situação actual

A invasão do Afeganistão e do Iraque permitiram aos EUA controlar estes dois cenários e numa visão mais abrangente, permitiram controlar o fenómeno do terrorismo islâmico. O problema não está resolvido, está apenas controlado. Se é admissível que o terrorismo tem diminuído (pelo menos estagnado), a situação em ambos os cenários é insustentável a médio prazo. Não existem condições sociais e políticas para manter um empenho de forças debaixo de fogo durante tanto tempo.

Por outro lado, qualquer recuo no Afeganistão e no Iraque representaria uma vitória dos grupos radicais, provando que o Ocidente pode ser vencido através de um conflito de baixa intensidade. Esses grupos radicais (de carácter internacionalista) podiam então concentrar as suas forças em velhos projectos adiados, como é o caso da destabilização do poder nos países árabes considerados moderados. A “queda” de um destes países às mãos do fundamentalismo traria novas variáveis ao problema: Teria ou não um efeito de contágio? Obrigaria ou não a nova intervenção preventiva? Ainda que se trate de um exercício de especulação é possível supor que a “institucionalização do conflito” é o pior que podia acontecer ao ocidente.

A situação interna nos países que apoiaram a intervenção é também um factor a ter em conta. Com as opiniões públicas distantes do perigo que representa o fundamentalismo islâmico e a ser afectada – directa ou indirectamente – pelos custos da guerra ao terrorismo, é cada vez mais difícil garantir os níveis de apoio que até agora se têm verificado. Como Ho Chi Min bem ensinava, o tempo corre sempre a favor dos mais fracos.

Qual é o balanço que podemos fazer desta guerra contra o terrorismo depois de três anos e duas batalhas. Duas ocupações militares instáveis e a mais poderosa máquina de guerra que o mundo já conheceu incapaz de deter um único homem.

As demonstrações de força

Uma perspectiva pouco analisada sobre a intervenção americana no Iraque é a demonstração de força que representou. Em pouco mais de uma semana, um Estado moderno dotado de mecanismos de defesa modernos, entrou em perfeito colapso, numa lição para outros países que ousem ameaçar a segurança interna dos Estado Unidos. Ou seja, foi uma exibição de poder militar, pretendendo com isso ter um efeito dissuasor sobre potenciais inimigos.

Sobre este ponto, é importante salientar que para as elites pensantes americanas, foi tanto ou mais preocupante a destruição parcial do Pentágono que o ataque às Torres Gémeas. O sistema nervoso central da defesa dos Estados Unidos da América foi concebido para sobreviver a quase todas as eventualidades e ataques exteriores. “Quase todos” como Bin Laden bem o provou, fragilizando o mito da supremacia militar americana e tornando-se numa metáfora fundamental para compreendermos a situação global nestes últimos três anos. Quando a América exibe o seu poder militar no Iraque, manda também um recado ao mundo inteiro, com uma mensagem que não tinha passado no Afeganistão: “Que ninguém se aproveite. Chega de tolerância. Este não é o princípio da nossa decadência”.

Bem ou mal, a mensagem passou. A Síria, a Líbia e até o Irão diminuíram o tom do seu discurso e alteraram significativamente as suas políticas. Mesmo a Coreia do Norte desespera por uma garantia de paz. Nesse sentido, o “showoff” do Iraque resultou. Em pouco mais de uma semana tropas americanas estavam à porta da capital. Qualquer chefe de estado se assusta com a imagem de Saddam Hussein, outrora garboso líder, escondido num buraco.

Porém, existe um reverso para esta medalha. As demonstrações de força podem ser contraproducentes. As demonstrações de força provocam réplica e em última instância o descontentamento das opiniões públicas, tornando-se num argumento para o recrutamento de novos terroristas. As réplicas também provocam novas demonstrações de força (o caso israelita demonstra-o com extraordinária clarividência). Acresce ainda que as demonstrações de força, quando repetidas, perdem o efeito dissuasor reforçando a confiança dos combatentes.

Sobre a inteligence

Dita e repetida foi a falência do sistema de informações ocidentais no dia 11 de Setembro. Se é verdade que os níveis de defesa dos países ocidentais têm-se revelado particularmente eficazes em prevenir novas tragédias, é igualmente verdade que as “agências” internacionais não conseguem adoptar uma postura pró activa no combate ao fundamentalismo.
A reforma dos serviços de informação americanos continua adiada e curiosamente os serviços europeus têm-se revelado bastante mais versáteis. A eficácia que a CIA demonstrou para lidar com o desmembramento da União Soviética prova apenas a falta de tacto com que tem tratado dos assuntos árabes.

Um dos melhores exemplos desta falta de preparação passa pelo papel de Condolezza Rice. A conselheira de segurança do Presidente é sem dúvida uma mulher brilhante. Mas pedir a uma especialista em assuntos soviéticos que analise a questão muçulmana é o mesmo que encomendar a um canalizador a alteração do sistema eléctrico lá de casa.

Sempre Israel

Um estudo jurídico português sobre o direito em países muçulmanos provava a relação directa entre a aprovação de leis de inspiração corânica nos países árabes e a derrota na guerra dos sete dias. Aliás, ninguém com bom senso pode discutir essa relação directa entre o problema israelita e o fundamentalismo islâmico.

Especialmente nesse sentido a intervenção no Iraque podia ser benéfica. A presença de uma poderosa força militar ocidental criava condições de segurança para Israel discutir a paz com os palestinianos sem se preocupar com a pressão dos seus incómodos vizinhos. Infelizmente teve o efeito contrário. O plano de Bush e Sharon acabou por esbarrar na intransigência dos colonos e nenhum deles teve a arte ou a força de impor a sua vontade.

Esta incapacidade de resolver o problema palestiniano deu a oportunidade aos fundamentalistas de apresentarem a invasão do Iraque como uma forma dos americanos protegerem Israel. Uma mensagem que é repetida à exaustão em mesquitas do mundo inteiro.

A guerra contra o terrorismo

O modelo da guerra contra o terrorismo tem de ser remodelado. O Ocidente aplica fórmulas de uma velha cartilha, quando os desafios são novos e inéditos. O terrorismo é global e internacionalista. O inimigo não é identificável por farda ou arma. Não tem estado, nação ou leis. Considera qualquer meio aceitável e não está sujeito a qualquer convenção internacional. Não aceita argumentos ou racionalidade. Tem a legitimidade moral de quem vive e morre em nome de Deus.

Por isso mesmo, esta não é uma guerra para grandes exércitos. Exige bisturi em vez do velho machado. Pequenos grupos de comandos - altamente preparados - em vez de contingentes de tropas regulares do Missouri. Homens que conheçam o Islão e os Islâmicos. Que falem e compreendam árabe.

O terrorismo é também uma guerra que exige tempo de antena. Sem os minutos de televisão não existe terrorismo. A intervenção directa de grandes contingentes é o mesmo que apontar holofotes a um espelho, alimentando ainda mais o monstro. A guerra contra o terrorismo só pode ser suja e silenciosa. Os resultados demonstram-no. Digam o que disseram, as Forças Armadas, os políticos e o sistema americano, continua melhor preparado para enfrentar tanques soviéticos que suicidas iraquianos.

O Ocidente tentou matar a mosca com um obus de canhão. A mosca, sabe-se, sobreviveu. Os danos colaterais do disparo, sabe-se, são imensos.


* Frase utilizada por John Kerry no segundo debate