O Acidental LONG PLAY

Só para quem gosta de ler

segunda-feira, dezembro 06, 2004

FRANCISCO SÁ CARNEIRO: UM PROJECTO DE LIBERDADE

[Rui Ramos, Outra Opinião, Lisboa, O Independente, 2004, pp. 154-170]



Em 1980, no meio das ruínas de uma ditadura e de uma revolução, Sá Carneiro propôs aos portugueses fazerem de Portugal uma democracia como as outras democracias da Europa ocidental. Nunca quis mais do que isso. Também nunca quis menos. Por isso, irritou as esquerdas, ainda presas ao socialismo revolucionário. Mas incomodou também as direitas – sobretudo aquela direita a quem sempre bastaram os negócios e empregos permitidos pelo paternalismo de Marcello Caetano, pela confusão do MFA, ou pela tolerância do Dr. Mário Soares.

Sá Carneiro sem mitos.

Convém não mitificar Sá Carneiro como fizeram os seus inimigos. Os inimigos de Sá Carneiro admiraram-no como um “animal político”, para poderem dizer que ele disputou o poder por puro gozo pessoal e à deriva das circunstâncias. Reconheceram nele um “líder carismático”, para poderem menosprezar os seus sucessos de 1979 e 1980 como um desvario messiânico destinado a acabar em Alcácer-Quibir. É verdade que Sá Carneiro nunca andou atrás de impossibilidades teóricas. Mas teve sempre um projecto. A esse projecto, chamou ele “social democracia”. Talvez seja bom recordar o que isso queria dizer. Em Portugal, na década de 1970, as esquerdas, do PCP ao PS, condenaram sempre a “social democracia”. E faziam-no porque a entendiam da mesma maneira que Sá Carneiro: como a designação do “regime de tipo europeu ocidental” que ele defendeu para Portugal desde que começou a fazer política em 1969. Em Dezembro de 1979, Sá Carneiro foi o primeiro político na história de Portugal a passar da oposição ao poder única e exclusivamente em virtude de uma clara maioria eleitoral. Nunca tinha acontecido antes dele. Sá Carneiro não foi um mítico D. Quixote solitário, predestinado para a tragédia: foi um líder político capaz de formular um projecto ao qual uma maioria dos portugueses aderiu na década de 1970. É essa história que é preciso perceber.

Um “inocente” no Estado Novo.

Sá Carneiro só se estreou politicamente aos 35 anos, a meio de uma carreira de advogado no Porto. Como quase todos os do seu meio, fora educado naquilo que ele chamou o “descrédito da política”. Um tio tinha sido ministro do Estado Novo, e o pai deputado. Não tinham feito “política”: tinham-se limitado a “servir” nos lugares para os quais haviam sido chamados. Era este espírito que Salazar cultivara entre os salazaristas. A sua função era apoiar e servir o Estado, e não disputar o poder ou agitar as opiniões. Mas quando, em 1969, Sá Carneiro aceitou um convite para ser eleito deputado no Porto, não foi para “servir” como os seus parentes. Como muitos outros, convencera-se de que, com a substituição de Salazar por Marcello Caetano, as direitas, até então submetidas a Salazar, iriam conduzir a transição para um regime fundado no sufrágio universal, com eleições limpas e partidos políticos legais. Sá Carneiro preparou-se para fazer política.

Depressa descobriu que se enganara. A estratégia de evolução ultramarina de Marcello Caetano não era compatível com qualquer evolução política. Caetano admitia a independência do ultramar, mas sem entrega aos partidos armados que combatiam a administração portuguesa. Por isso, precisava de continuar a guerra. Ora, para continuar a guerra, não se podia permitir o luxo de uma democracia de tipo ocidental, que as esquerdas certamente aproveitariam para espalharem a sua propaganda derrotista. Havia, porém, um processo de democratização que Marcello Caetano, aliás na tradição salazarista, queria incentivar: era a “democratização económica e social”, através da abertura de espaço para a iniciativa empresarial e da expansão dos serviços do “estado social”.

Sá Carneiro nunca aceitou esta ideia salazarista de desenvolvimento sem liberdade. Não podia esperar, como os salazaristas recomendavam, que os portugueses se habilitassem primeiro, através do trabalho e da educação, para a cidadania. Ter-se-á Sá Carneiro apercebido das transformações do país na década de 1960, e sentido mais seguro para esperar a democracia ocidental? A história talvez seja mais complicada. A actividade em que ele mais se aproximara da política tinha sido o activismo católico. Os activistas católicos, nas décadas de 1950 e de 1960, não vinham necessariamente de famílias católicas ou muito devotas: alguns eram até conversos. Mais do que o cumprimento dos deveres dos fiéis, animava-os a vontade de mudar de vida. Nesse contexto, Sá Carneiro fundou no Porto, em 1964, uma cooperativa cultural com o nome de “Confronto”. Era isso que ele e os católicos como ele procuravam nessa década. O Concílio Vaticano II deu cobertura papal às iniciativas de renovação dinamizadas por leigos. O afastamento, provocado pelas guerras em África, entre o Vaticano e o governo salazarista legitimou o desafio ao regime: subitamente, a “liberdade da Igreja”, até aí identificada com o Estado Novo, pareceu compatível com a exigência de “democracia política”. Neste sentido, o activismo católico foi uma das vias para a revolução cultural da década de 1960, e para a ruptura com o salazarismo. Não por acaso, uma parte importante destes católicos ditos “progressistas”, sobretudo aqueles que se envolveram na contestação da guerra no ultramar, acabou na esquerda revolucionária. Sá Carneiro manteve-se anticomunista e muito prudente e reservado acerca do problema ultramarino. Mas foi um dos que intercedeu junto de Marcello Caetano a favor do regresso ao país de D. António Ferreira Gomes, o Bispo do Porto exilado em 1959 devido aos seus confrontos com Salazar. A Sá Carneiro, o catolicismo pós-conciliar deve-o ter ajudado a chegar a uma concepção dos “direitos e liberdades” como fundamentos da “realização da pessoa humana” e de um “convívio humano justo”. Mais do que isso, convenceu-o da importância da política. Como explicou em 1969, no seu primeiro discurso político, “por muito que se tenha sido educado no descrédito da política, é-se forçado a reconhecer que, quando se começa a tomar em profundidade consciência da nossa própria existência pessoal e das realidades que nos cercam, somos constantemente conduzidos a ela. [...]”.A política, entendida como actividade de relação, era o lugar em que o indivíduo encontrava sentido. Já tinha sido assim que os liberais haviam pensado no século XIX. Tal como para eles, também para Sá Carneiro a liberdade política era prioritária. A designação de “liberal” estava assim exacta, não porque ele estivesse consciente de uma ligação directa ao passado (não estava), mas porque de facto era a recuperação de uma concepção “nobre” da política como principal actividade humana.

Sá Carneiro desorientou os salazaristas, tanto como os antisalazaristas. Ninguém nunca soube bem como o classificar. Quase toda a gente, tanto dum lado da barricada como do outro, estranhou a definição de “liberal”. O termo, para além do sentido de “liberalização”, tinha então um significado sobretudo histórico: referia-se aos estados constitucionais do século XIX. A história desses estados continuava, nesses anos, a ser feita de um ponto de vista marxista. Julgava-se que o “liberalismo oitocentista”, como se dizia, não teria sido mais do que um capitalismo sem regras nem coração. Sá Carneiro, educado na doutrina social da Igreja e por isso admirador dos sistemas de apoio social das democracias ocidentais, não se deixou naturalmente associar a esse liberalismo-espantalho inventado pelos marxistas. Como ele explicou, era “liberal” na medida em que acreditava que “jamais os direitos da pessoa humana podem ser submetidos aos da sociedade”. Este liberalismo separava-o, não apenas da maior parte dos salazaristas, mas também de quase toda a esquerda anti-salazarista, onde o marxismo se tornara de rigor. Para além disso, Sá Carneiro era um democrata. Percebera o erro fundamental do salazarismo. Os salazaristas tinham-se habituado a opôr autoridade e democracia. Sá Carneiro percebeu que a autoridade, para ser real, teria de estar fundada na democracia. Marcello Caetano era a prova disso. Em 1969, ao procurar um aval popular para a sua política ultramarina, tentara fazer das eleições legislativas o que tinham sido as eleições presidenciais na década de 1940 e de 1950, uma forma de sufrágio do regime.

A partir de 1970, na Assembleia Nacional, com o aplauso de uma dezena de deputados “liberais”, Sá Carneiro insistiu em apresentar projectos para o “restabelecimento dos direitos e liberdades fundamentais”. Exasperou os velhos salazaristas. Incomodou ainda outra espécie de gente: a nova geração de governantes recrutada por Caetano, os chamados “tecnocratas”. Como ambos os grupos falavam de “modernização”, confundiu-se por vezes “liberais” e “tecnocratas”. Era um equívoco. Muitos dos “tecnocratas” não se importavam de utilizar o estado autoritário para “modernizar” Portugal. Eram funcionários, às vezes críticos, mas leais. Embora convivessem com Sá Carneiro, sempre souberam que ele, irreverente e “político”, não era como eles.

Em 1973, quando Sá Carneiro e os “liberais” abandonaram a Assembleia, Caetano sorriu: “Eu por mim sempre me tive na conta de liberal: mas não pertenço ao número destes inocentes”. Ao exigir o fim da censura e da PIDE, os “inocentes” estariam apenas a abrir as portas ao “comunismo”. As esquerdas anti-salazaristas também sorriam da “inocência” de Sá Carneiro: acreditava na “democracia burguesa”, sem perceber que só uma nova ditadura de marxistas convictos poderia erradicar o salazarismo. Os salazaristas e os marxistas não eram de facto inocentes. Uns e outros nada esperavam de uma população que eles consideravam “atrasada”, a precisar da albarda de burocracias iluminadas. Sá Carneiro, logo em 1969, discordara: “recuso-me a aceitar que sejamos assim, que o nosso povo tenha por natureza de ficar eternamente sujeito ao paternalismo de um homem, de um sistema, ou de uma classe. Recuso-me a admitir que, ao contrário dos outros povos, não possamos ser capazes de conciliar a liberdade com a ordem, o progresso com a segurança, o desenvolvimento com a justiça”. Esta “inocência” seria a base da sua força política na década de 1970.



O “agitador” numa democracia limitada.

Talvez Sá Carneiro fosse um “inocente”, mas, ao contrário do experimentado Marcello Caetano, não era um homem de causas perdidas. A passagem pela Assembleia Nacional dera-lhe uma notoriedade que lhe valeu, depois de 25 de Abril de 1974, entrar no primeiro governo provisório como chefe de um novo partido, o Partido Popular Democrático. Comprometeu-se então com o general Spínola, de quem tentou fazer um presidente da república eleito, e portanto com a legitimidade democrática necessária para resistir ao assalto dos marxistas. Mas o general sofria do mesmo problema de Caetano: a identificação com um projecto ultramarino que, para ser viável, requeria a continuação da guerra. Isso deu a iniciativa aos oficiais do MFA, aconselhados pelas esquerdas. No seu célebre confronto com o MFA na Manutenção Militar, em Junho de 1974, Sá Carneiro ainda respeitou a linha ultramarina do general. Percebeu depressa que era um beco sem saída. Em Julho, apesar de ainda sublinhar a importância de uma “consulta democrática” no ultramar, reconhecia: “há que descolonizar rapidamente”. Agiu sempre em função do que era possível.

Graves problemas de saúde obrigaram Sá Carneiro a ausentar-se do país em 1975. Quando regressou, não encontrou a democracia representativa e pluralista por que lutara desde 1969, mas aquilo que ele chamou uma “semidemocracia”. Havia em geral liberdade de expressão e de actividade partidária, e as eleições eram limpas. Tudo isso, porém, tinha um alcance limitado. Limitado, em primeiro lugar, pelo poder militar, representado pelo Conselho da Revolução e pelo Presidente da República, um general que era simultaneamente o chefe do Estado Maior General das Forças Armadas. Não bastava ganhar eleições: era preciso contar com a boa vontade dos militares. Era ainda preciso ser de esquerda. A Constituição de 1976 impunha os objectivos do socialismo revolucionário, incluindo “a apropriação colectiva dos principais meios de produção”. O esquerdismo funcionava assim como uma fonte de legitimação do poder mais importante do que as formalidades democráticas.

Desde o Verão de 1975, poucos como Sá Carneiro foram tão claros e veementes na recusa deste regime. Denunciou o militarismo. Negou o marxismo. E declarou, para escândalo geral, não partilhar o objectivo de alcançar uma “sociedade sem classes”, então um dos dogmas mais sagrados do novo regime e aceite igualmente pelo PS, pelo PCP e por todas as facções do MFA. Para as forças de esquerda nunca houve dúvidas: Sá Carneiro, por mais que falasse de “socialismo personalista”, não era dos deles. Também nunca reconheceram ao seu partido, rebaptizado como Partido Social Democrata em 1976, um lugar à esquerda. O público em geral também não. Em meados de 1978, segundo uma sondagem de opinião, 35 % dos portugueses situavam o PSD à direita, 23 % ao centro e apenas 2 % à esquerda. Em média, o PSD estava muito claramente à direita. Os líderes do PSD, no entanto, jamais admitiram a validade desta impressão. Nas condições da “semi-democracia”, um partido que se declarasse à direita estaria apenas a autoexcluír-se do poder. Não quer dizer que a direita não existisse. 26 % dos portugueses situavam-se à direita, e 39 % à esquerda (35 % não sabiam onde se situar). Mas quando, em vez do público em geral, os inquiridores interrogaram aqueles a quem chamaram “líderes de opinião”, isto é, as pessoas aparentemente mais interessadas e envolvidas na vida política, a desproporção aumentou: 62 % situavam-se à esquerda, e apenas 28 % à direita. Quem queria, de algum modo, participar politicamente sabia que era mais vantajoso fazê-lo à esquerda. Sá Carneiro era colocado à direita por 34 % dos inquiridos em 1978, no centro por 16 % e na esquerda por 2 %. Tinha uma imagem mais marcada à direita do que Soares tinha à esquerda (Soares era colocado à esquerda por 27 % dos inquiridos, ao centro por 18 % e à direita por 4 %). Sá Carneiro, no entanto, nunca se identificou como “de direita”. Não porque quisesse manter um equívoco, mas precisamente para não alimentar equívocos. As direitas estavam, quisessem ou não, identificadas com o Estado Novo, por mais que os dirigentes do Estado Novo tivessem feito questão de dizer que não eram de direita, mas apenas apoiados pelas direitas. Ora, o Estado Novo não estava apenas associado à opressão, mas a um desnorte sem remédio e a uma derrota sem atenuantes, como se vira em Abril de 1974. Não era apenas por causa das restrições da “semi-democracia” que havia tão pouca gente de direita. Para quem, como Sá Carneiro condenava intransigentemente o marxismo que então definia as esquerdas, declarar-se de “direita” era permitir às esquerdas explorar o equívoco do nome para o liquidar por associação ao Estado Novo. Foi esse equívoco que ele não quis criar. Tanto mais que ele rejeitara o salazarismo e acabara na oposição a Marcello Caetano. Na sua vida, também não estava em sintonia com os preconceitos que então identificavam os conservadores. Mesmo assim, as esquerdas identificaram-no logo como o mais perigoso “agitador” daquilo que Mário Soares, em 1977, designava como a “onda das forças reaccionárias, para não dizer fascistas”.

Não foram apenas as esquerdas que se irritaram com a linguagem e a atitude de Sá Carneiro. As direcções partidárias das direitas também não gostaram dele. É que muita gente à direita, habituada à existência tecnocrática e apolítica a que a reduzira o salazarismo, dispunha-se a colaborar com o poder militar e a esquerda governamental, tal como antes tinha colaborado com Marcello Caetano. Sá Carneiro tinha muita dessa gente consigo no PSD. Estavam com ele porque as esquerdas os consideravam de “direita”, por eles serem católicos ou levarem a sério os manuais de economia não-marxista. Mas em 1976 já não se sentiam ameaçados pelo regime. O poder militar e as esquerdas governamentais queriam sobretudo manter-se equidistantes do PCP e da “reacção”. A Igreja Católica tinha sido prudentemente deixada em paz. Depois da lei do divórcio, nem sequer tinha havido uma lei do aborto. As esquerdas governamentais hesitavam em desfazer-se das herdades e bancos expropriados em 1975, mas na prática já tinham reconhecido que a “recuperação económica” não se poderia fazer pelo socialismo. Por isso, esforçavam-se por obedecer às receitas do FMI, e tinham até pedido a integração na CEE. Pior ainda, em Paris, onde então ainda se decidia o que os lisboetas pensavam, o marxismo e a União Soviética caíram subitamente em desgraça, e os filósofos da moda (muitos deles antigos esquerdistas) tripudiavam agora sobre as verdades que em 1974 pareciam eternas. O “pensamento de esquerda” consistia agora em lamentações sobre a “crise do pensamento de esquerda”. Com os seus ministros submetidos e os seus intelectuais em processo de reciclagem, as esquerdas governamentais tinham perdido o triunfalismo doutrinário de 1974-1975. Os tecnocratas da direita podiam assim menosprezar o condicionamento interno do militarismo e do esquerdismo, confiando na força do condicionamento externo, representado pela CEE e pelo FMI. Já tinha sido essa a esperança deles no tempo do Estado Novo, a quem auguraram um passamento suave às mãos do comércio livre europeu. A CIA, dirigida pelo benemérito Carlucci, sempre muito amigo do Dr. Soares, concordava com eles.

Esta “liberalização” pela porta do cavalo nunca entusiasmou Sá Carneiro. Sabia ser impossível dar confiança aos empresários enquanto tudo continuasse dependente dos humores incertos do poder militar e esquerdista, que continuava a não querer condenar o Partido Comunista, nem a podar os seus feudos. Acima de tudo, a livre-empresa nunca interessou politicamente a Sá Carneiro senão como atributo de cidadãos independentes e activos numa democracia: já tinha sido isso que o separara do salazarismo. Sá Carneiro não se limitou a reivindicar condições de crescimento económico – fê-lo em nome do que ele chamou “clareza democrática”: o dever dos políticos, em democracia, de apresentarem opções claras de governo, e o direito do povo de as sufragar em eleições. Só assim, segundo Sá Carneiro, os políticos teriam autoridade real para cumprir os seus programas, e só assim o povo se poderia sentir verdadeiramente representado. Repare-se que nada disto tinha que ver com o “basismo” das esquerdas revolucionárias. Ao incentivar a acção do povo, as esquerdas revolucionárias não pretendiam permitir aos indivíduos debater e escolher entre várias opções, mas criar um vazio de autoridade que desse a pequenas minorias a oportunidade de dirigir os acontecimentos. Sá Carneiro não tinha a demagogia de querer ver operários deputados, ou a autoridade do estado repartida por sindicatos e comissões de moradores. Queria antes, por via representativa, obter uma real identificação da população com o poder, por forma a aumentar a autoridade e a eficácia desse poder. E isto porque, para ele, não havia na sua época outra possibilidade de dar ao poder autoridade e eficácia a não ser pela democracia.

Foi esta proposta de basear o sistema em opções claras sujeitas a sufrágio popular que verdadeiramente chocou tanto as esquerdas governamentais, como a elite tecnocrática da direita. As elites da semidemocracia não só mantinham, como até tinham aumentado, todos os preconceitos tradicionais contra o povo. Tecnocratas e esquerdistas estavam literalmente aterrorizados pelo fantasma de um povo que imaginavam revolucionário a sul, e contra-revolucionário a norte. Uma verdadeira democracia seria a guerra civil. A nível da elite, mais civilizada e vigiada de perto pelos militares, poderia certamente haver acordos, transações, até porque ninguém queria precipitar rupturas: as esquerdas governamentais não queriam empurrar as direitas para a “reacção”, e as direitas respeitáveis não queriam obrigar as esquerdas a aliar-se ao Partido Comunista. Mas que fazer do povo, boçal e desvairado, sempre pronto a deixar-se enganar por padres fascistas ou agentes de Moscovo? Esta era a época em que, depois de cada acto eleitoral, os governos respiravam de alívio e anunciavam que tudo decorrera traquilamente, como se tivessem esperado que não decorresse. Convinha assim que a governação mantivesse o estilo de uma autocracia administrativa de responsabilidade limitada, sem “política”, e mudando o statu quo só à medida das ordens do FMI ou da CEE. A alternativa de Sá Carneiro parecia à classe política instalada o caminho para confrontos desnecessários.

Os camaradas de Sá Carneiro na direcção do PSD lamentaram sempre o seu carácter “instável” e “intratável”. Tudo foi aproveitado para o denegrir. Murmuraram, para o embaraçar, acerca da sua situação marital. Como vinha do Porto, acusaram-no de representar contra eles, sensatos lisboetas da classe média, o povo católico e caceteiro das províncias do norte, cujo peso no partido eles deploravam amargamente.

Eleitoralmente, o PPD surpreendeu em Abril de 1975, mas o PSD falhou em Abril de 1976, quando a sua percentagem de votos desceu de 26 % para 24 %. Foi provavelmente o preço das hesitações e divisões da direcção. Este fracasso eleitoral determinou a via sacra de Sá Carneiro. Custou-lhe quatro anos de canseiras. O contraste entre a violência dos seus depoimentos do fim de 1975 e do princípio de 1976, quando terá pensado numa vitória, e a contenção a que teve de se submeter depois da decepção eleitoral de Abril de 1976, mostram que ele não era simplesmente um espalha-brasas, um homem de “rupturas” irresponsáveis, da guerra pela guerra. Entre 1976 e 1979, tentou jogar com o que havia. Sem ilusões, sob pressão dos seus camaradas da direcção do PSD, esforçou-se por convencer o Presidente Eanes a apadrinhar uma aliança reformista alargada, e tentou negociá-la com Soares. Nunca teve resultados. Pelo contrário, tanto Eanes como Soares fizeram constar que todos os acordos seriam possíveis, se não fosse Sá Carneiro. Ele não era o intermediário: era o obstáculo. Os dirigentes do PSD ouviam isto, repetiam-no uns aos outros, convenciam-se. Obrigaram-no a demitir-se uma vez da liderança, e desertaram em massa do partido sempre que ele os venceu. Sá Carneiro triunfou no seu partido porque, se o PSD era uma força social, politicamente não era nada sem Sá Carneiro, a não ser uma espécie de apêndice do PS: os militantes, como era natural, nunca gostaram desta subalternidade altamente apreciada pelos seus líderes. A fraqueza e a falsidade destes arranjos, que Sá Carneiro previu, jogaram a favor dele.

Tudo isto fez com que, entre 1976 e 1980, a fronteira política em Portugal passasse por dentro do PSD: era ali que se poderia optar entre a semidemocracia e a democracia. E foi este facto que deu o protagonismo a Sá Carneiro. Em 1979, o desespero geral trouxe-lhe novos recursos políticos, sob a forma de uma aliança com o CDS, um partido que, depois de aproveitar para crescer à direita do PSD em 1976, tentara colher os frutos do poder colocando-se à sua esquerda, em aliança com o PS, em 1978. Sá Carneiro pôde finalmente optar pela célebre “bipolarização”. A bipolarização não era a guerra civil. Era a instituição de um verdadeiro equilíbrio e alternância, em pé de igualdade, entre duas forças políticas distintas e com programas claros, mas ambas comprometidas com a causa da democracia pluralista. Obviamente, Sá Carneiro não propunha isto para ficar na oposição. Esperou que a bipolarização empurrasse o PS mais para a esquerda, e consolidasse um bloco à direita do PS, que ele se propunha chefiar. Nas circunstâncias do país, ele sabia que este bloco poderia alcançar uma vitória eleitoral.

Um “projecto de liberdade”.

Tal como Eanes e Soares, os outros actores principais da política entre 1976 e 1980, Sá Carneiro mudou constantemente de táctica. Mas enquanto ninguém sabia o que Eanes ou Soares queriam para o país, sabia-se o que Sá Carneiro se propunha fazer. Eanes sofria das ambiguidades típicas do poder militar, que procurava não se identificar com nenhuma força política. Soares e as esquerdas governamentais, ainda de luto pelo colectivismo, evitavam assumir claramente alternativas (a Terceira Via só apareceu vinte anos depois). Sá Carneiro sabia o que queria e dizia-o abertamente. A arte da manobra e do sound bite de nada lhe teria valido sem isso.

A clareza de Sá Carneiro não derivava de uma ilusão democrática, mas da sua confiança no povo. Esta confiança não era feita de carinho pelos humildes, ou de ousadia populista. Era feita, em primeiro lugar, de uma necessidade lógica e política: numa democracia, qualquer poder político não verdadeiramente democrático tenderia a ser um poder falso e fraco. Era o caso dos governos portugueses entre 1976 e 1980. Ora um poder fraco, era um poder ineficiente, o que, em vez de poupar confrontos, só aumentava frustrações e revoltas. Numa democracia, era preciso envolver os cidadãos, ou sofrer as consequências da sua indiferença ou indignação. Quando Sá Carneiro dizia que o regime estava em perigo, não pensava, como as esquerdas quando estas diziam o mesmo, no golpe iminente de forças organizadas, mas no enfraquecimento das instituições, na estagnação económica, na degradação moral. Em segundo lugar, Sá Carneiro apercebera-se mais do que ninguém da imensa impaciência que o regime criara. Essa impaciência não se limitava ao que as esquerdas chamavam “reacção”, e que incluía o meio milhão de retornados e os vexados do PREC. A impaciência estendia-se aos próprios simpatizantes e militantes das esquerdas. Não era apenas resultado de carências, mas também de uma nova abundância, que ninguém queria perder, que se tinha tornado base de uma nova identidade. Portugal começdara a mudar desde a década de 1950. Os portugueses iam deixando de ser lavradores em pequenas comunidades do interior para passarem a ser consumidores nos subúrbios do litoral. Evoluíra-se da horta ao supermercado. Esse consumo criara novas identidades, novos valores, novas atitudes políticas. Ora, sob o Estado Novo, as esquerdas tinham aparecido inicialmente como uma porta de saída: representavam o fim da guerra, a liberdade individual, a experiência de coisas novas. Ao fim de cinco anos de poder, porém, as esquerdas só tinham conseguido produzir um regime que Manuel de Lucena descreveu como o “corporativismo sem Salazar”, no meio de um descalabro financeiro que traduzia sobretudo a falta de autoridade do estado. Não por acaso, muitos dos mais violentos críticos do regime eram antigos esquerdistas desiludidos.

Sá Carneiro soube explorar estas desilusões. Com ironia, comparou a “semidemocracia” ao Estado Novo, e lamentou a natureza “reaccionária” das esquerdas. De uma certa forma, ele veiu a corporizar o anti-situacionismo. A classe política detestava-o como um imprevisível troublemaker. Mas em 1979, Sá Carneiro era o chefe partidário com quem mais portugueses simpatizavam. Ao seu projecto, chamou Sá Carneiro um “projecto de liberdade”. Era, perante a confusão dos militares e das esquerdas governamentais, um projecto de clarificação. Em primeiro lugar, assentava no reconhecimento da separação entre o estado e uma sociedade civil, definida pelo direito dos cidadãos à propriedade individual e à iniciativa privada. Em segundo lugar, numa clara opção pelo Ocidente no confronto com a União Soviética (em vez do neutralismo em vigor desde 1975). Nessa medida, Sá Carneiro representou em Portugal o ímpeto de mudança do sistema sócio-económico e de afirmação dos valores da democracia ocidental que, no fim da década de 1970, reanimou a política na Europa e na América. O projecto de Sá Carneiro mobilizou indivíduos que se libertavam das limitações sociais e dos preconceitos ideológicos das décadas anteriores. Pode-se perguntar porque é que, de todos os políticos portugueses, coube a um homem reservado, de uma família tradicionalista do Porto, liderar esta transformação? Talvez porque, pessoalmente, ninguém, entre os líderes políticos, tivesse mudado tanto como ele: ao contrário de Soares ou de Cunhal, filhos esquerdistas de pais esquerdistas, Sá Carneiro, mais novo do que eles, rompera com o seu meio, e encontrara uma vida nova. Só ele, entre os líderes dos grandes partidos, tinha uma experiência íntima tão agitada, tão complexa, como a sociedade em que esses líderes procuravam agir.

Em 1979, na Aliança Democrática, com o CDS, o PPM e os desiludidos da esquerda, Sá Carneiro tentou ultrapassar as tentações situacionistas das direitas. A AD não consistiu somente num entendimento partidário. Foi, como disse Adelino Amaro da Costa, um “fenómeno sociológico”: a última força política em Portugal a dominar as ruas. Para se defender, a esquerda tentou, inutilmente, inventar watergates contra Sá Carneiro. Mas era nos corredores do poder que ele enfrentava as questões mais exasperantes. Como recordou Vasco Pulido Valente, “a frase eu, que não sou político... [...] ouviu-se [...] durante os primeiros seis meses, a vários dos ministros mais importantes e a propósito dos mais importantes problemas”. Os técnicos apolíticos que rodeavam Sá Carneiro continuavam a não perceber. Não percebiam, por exemplo, que mal havia em aplicarem as instruções liberalizantes do FMI ou da CEE debaixo da compreensiva tutela do general Eanes, ou até na alegre companhia do Dr. Soares. Ressentiram a sujeição das “finanças” à “política”. Não gostaram do entusiasmo da população nos comícios, a gritar “Eanes para a Sibéria”. Horrorizaram-se com o modo como Sá Carneiro arriscou tudo na batalha contra o general Eanes em Dezembro de 1980. A certa altura, já não temeram que ele perdesse: desejaram que ele perdesse.

Sá Carneiro não escolheu este combate por qualquer pulsão suicida, mas por uma questão política. Não era um contabilista nem um funcionário, capaz de “servir” sob qualquer gerência. Ao contrário dos funcionários e contabilistas que têm fingido de chefes políticos em Portugal, não tinha medo de perder. Era um líder político com um bom projecto, e confiava na população. Se perdesse, voltaria para uma nova batalha, como fizera sempre. No almoço do dia 4 de Dezembro de 1980, explicou o seu plano. Ia deixar o governo aos dirigentes apolíticos do PSD. Dava-lhes um ano, até eles se “espetarem”. Depois, formaria um novo partido, juntando os militantes do PSD e a direcção do CDS. Então, voltaria ao ataque. De facto, como ele tinha previsto, eles “espetaram-se”. Mas ele já não estava lá.

O seu percurso mostra que Sá Carneiro não tinha da política uma ideia romântica, de grandes gestos e palavras sem consequência, nem uma ideia positivista, de gestão técnica das coisas, mas uma ideia clássica, apropriada à democracia: tratava-se de envolver os cidadãos seus pares num movimento, legal e razoável, de decisão acerca da vida em comum. Sem Sá Carneiro, o Conselho da Revolução acabou, e os bancos foram privatizados. Mas nunca mais se fez política como ele fazia. E no fundo era essa política, mais do que as reformas legislativas, a substância principal do “projecto de liberdade”.